terça-feira, março 19, 2013

Onde está a crise?



A crise da Europa está na juventude, dizem os mais velhos. A crise da juventude está na ausência de valores, dizem os mais tradicionalistas. A Europa está em crise, dizem os jovens. E os mais velhos. E os mais tradicionalistas. E a enumeração poderia assim continuar por páginas e páginas, por dias e dias, por opiniões e convicções. Sejamos realistas: todos criticam, poucos analisam.

«Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão», eis um provérbio feito bem à medida da Europa actual. Vivemos uma crise da instituição, das estruturas políticas, dos jovens, dos menos jovens, dos que não têm pão (que são cada vez mais), dos que defendem o liberalismo, dos que defendem o proteccionismo, dos que acusam as juventudes partidárias, dos que acham que falta é política e que o primado maior será sempre o político, o herdeiro natural da pólis.

A pólis é uma palavra do passado, embora repetida à exaustão nos dias que correm, mostrando que a história é cíclica, e que há conceitos intemporais. Pese embora a actualidade do conceito, a génese das principais características que atribuímos e elogiamos na pólis encontram-se nas cidade-estado gregas e na forma como a participação dos cidadãos era a base da sua organização política. Transportámos para a contemporaneidade as concepções clássicas de cidadania, democracia, participação cívica, política de proximidade e vestimos-lhes novas roupagens. Criámos novas gestus políticos, como os orçamentos participativos, museus etnográficos ou associações para os diferentes direitos individuais e colectivos, porque somos homens de política. Porque a política está no nosso âmago. E porque a democracia, mesmo sabendo que é um lugar-comum, continua a ser a melhor das soluções.

Onde está Wally? Esqueçam o Wally! Hoje o que todos procuram é a origem da crise. Em todo o lado, a todo o momento. Ligo a TV, oiço a rádio, folheio os jornais, leio blogs, em todos eles as mesmas respostas: A crise da Europa é económica. Não, a crise da Europa é financeira. Não, a crise da Europa é política, pois a Democracia está doente. Esqueçam o Wally! E esqueçam A resposta, porque estamos há demasiado tempo a fazer as perguntas erradas.

A Europa tem futuro? Os jovens saberão escrever o amanhã? Qual a última letra da crise? Temos tanta coisa para perguntar e tão poucas respostas. Porém, temos algo que não possível roubar, prender no banco, nem pôr a pagar a 50 anos: Criatividade. Não que tenhamos mais hoje do que no passado, mas temos as ferramentas para transmitir as nossas ideias por toda a Europa à distância de um click. As instituições europeias repetem erros após erros, os jovens são afastados do futuro que merecem, e as democracias ocidentais vacilam às demagogias de direita, esquerda, e liberais-viciados-em-excel. Mas a Europa não está em crise, os jovens não estão em crise, a Democracia não está em crise. Enquanto tivermos a capacidade de discutir nas redes sociais, nos cafés, nos encontros em Bruxelas, nas manifestações que enchem tanto as ruas que até os agentes políticos de andar por casa contam as pessoas uma-a-uma para garantir que afinal não foi nada de especial, enquanto tudo isto acontecer nada está perdido.

E termino com uma alusão à mitologia, com uma justa e merecida referência à principal herança que nos une a todos, a Grécia. Tal como no passado, e qual Agenor, é hora de pegar no barco, rumar a Sul, e procurar a princesa Europa. A solução para os problemas europeus pode bem estar na Grécia, só temos de a valorizar e elevar.

nota: A imagem é uma representação grega da princesa Europa, não encontrei mais dados sobre a mesma.

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