sexta-feira, outubro 18, 2013

a chamada

não via a mãe há mais de dois anos. os dias haviam passado, as chamadas não atendidas acumulado e fazia já mais de seis meses que a sua mãe não pedia informações à vizinha da frente. ele gostava desse silêncio, dessa ausência, da confirmação do afastamento que sempre procurara. dois anos, dois anos passam rápido mas não apagam todos os outros. naquele dia, tal como hoje, chovia bastante. a cidade cheirava a terra e a casacos-de-armário, a pressa de chegar a casa para ver o jogo era geral e apenas ele estava distante disso tudo. preso, como tantas vezes antes, numa discussão que já conhecia o fim. não me faças isso, filho. eu dei tudo por ti. eu mato-me. sempre a mesma pressão, a mesma chantagem. a mesma brutal violência vinda de quem o abandonara aos dois anos. dois anos, dois anos passam a correr. o telemóvel tocou, era um desconhecido qualquer a comunicar que sua mãe morrera. deve ser engano, a minha mãe morreu há dois anos. obrigado e desculpe.

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