terça-feira, outubro 01, 2013

Requiem pela Adega dos Lombinhos

Ao fim de quase 100 anos, chega ao fim uma das tasquinhas mais acarinhadas de Lisboa para dar lugar a um hotel de uma cadeia internacional. A Baixa pode estar a ficar mais bonita, mas se calhar está a deixar de ser a Baixa.

Com ou sem ovo?” Sempre que ouvimos esta pergunta sabemos que estamos no sítio certo. Porque só uma grande casa nos dá a oportunidade de engrandecer uma generosa dose de proteínas com mais proteínas. A acompanhar, Arroz e Batatas – a única dupla a que toda a gente chama de Guarnição.
A estes ingredientes soma-se ainda o pão (ou pãozinho) e o picante (picantezinho). Para pôr onde? Nos lombinhos. 
No número 52 da Rua dos Douradores, os diminutivos são mais do que uma questão de linguagem. 
A Adega é pequena, com apenas 14 lugares sentados. O vinho é servido em copos de três a sério, daqueles que se esvaziam num gole e meio. Aos lombos chama-se lombinhos porque vêm cortados muito finos e fritos na chapa. As batatas são batatinhas porque foram descascadas, cortadas e fritas à nossa frente – o “inho” que elas ganham antes de vir para a mesa é de car-inho. Se pedir uma cerveja sem especificar servem-lhe uma mini. No final chega a continha, com um valor inferior ao esperado. 
O que não é pequeno na Adega dos Lombinhos é a popularidade. Sempre entre o cheio e o muito cheio, das sete da manhã às oito da noite, horário cumprido todos os dias excepto ao domingo. 
O que é grande, agora, é a tristeza de saber que um dos restaurantes mais característicos da cidade vai fechar para sempre. Dia 31 de Outubro (ou antes) o senhor João vai perguntar pela última vez: “Com ou sem ovo?” Em 2017 a Adega dos Lombinhos faria 100 anos. 
A história dos restaurantes da Baixa faz-se de Galegos, Minhotos e Beirões que desceram à capital para trabalhar com um tio. Mais tarde abriram as suas casas de pasto, solares, parreirinhas, tascas ou adegas. Foi isso que fizeram os irmãos João e Eduardo Amorim, os dois homens por detrás desta adega que ostenta orgulhosa um calendário de parede com a mapa da Freguesia de Venade, Viana do Castelo. 
“Na minha terra riam-se se eu levasse os Lombinhos para lá”, conta Eduardo, o cozinheiro, “lá em cima toda a gente está habituada a carnes do tamanho da pedra da calçada”. 
A Adega propriamente dita é anterior aos irmãos. Está ali desde 1917 e mantém-se igual ao que era quando abriu para servir bebidas a marinheiros e empregados do comércio da zona, gente que acordava muito cedo ou se deitava muito tarde. A comida só começou a sair daquele metro quadrado de cozinha nos anos 20: lombinhos no pão para aconchegar o estômago antes do primeiro ou depois do último copo. 
A origem da receita dos lombinhos é um mistério. “Já cá estava quando eu cheguei”, conta Eduardo que com o irmão e a mulher tomam conta do restaurante há 36 anos. 
Nos tempos áureos, a Adega dos Lombinhos servia 500 carcaças por semana, outros tantos bolinhos de mel e um sem número de bebidas. Muito procurado era o Velhinho de 99 Anos, um vinho branco velho licoroso já extinto, mas muito popular na época. Um cartaz desse vinho é o grande – e talvez único – elemento decorativo desta adega forrada a mármores, garrafas de vinho Campelo e boiões de mostarda. 
Nas ruas perpendiculares à Rua do Ouro (Santa Justa, Assunção, S. Nicolau) a calçada à portuguesa está a ser substituída por pedra lioz. Ambas as pedras são de calcário, mas esta última é maior, mais prática, mais moderna. Três coisas que a Baixa quer ser. Três coisas que a Adega dos Lombinhos não é. 
Não é preciso dizer mais nada sobre o potencial metafórico desta empreitada pré-eleitoral. 
A amputação voluntária e silenciosa de todas as coisas boas da cidade faz lembrar a história do pavão que, para se tornar um pássaro mais atraente, deixou de conseguir voar. 
A Baixa de Lisboa, cada vez mais turístico-cêntrica, pode até estar a ficar mais atraente, mas está a deixar de ser aquilo que é. 
O cortejo fúnebre de símbolos desaparecidos já vai longo. As livrarias Sá da Costa e Barateira foram muito faladas, a alfaiataria Picadilly saiu de mansinho da Rua Garret e o Grémio Lisbonense há muito que já era (vai ser um hotel). 
A Limonada, o melhor vão de escada que esta cidade já conheceu, fechou em 2009. Naqueles dois metros quadrados da Rua Nova do Almada comiam-se as melhores sandes de leitão na companhia dos clientes frequentes do Tribunal da Boa Hora: criminosos, advogados ou uma mistura dos dois. À tarde, podia beber-se uma limonada com reformados dispostos a tudo para defender a inocência de Vale e Azevedo.
No seu lugar existe hoje um café com “conceito”. Um conceito, para quem não sabe, é aquela coisa que têm todas as coisas sem história e sem razão de ser. 
A história cria-se, é turbulenta, incontornável, orgânica; os conceitos inventam-se. Onde era a Limonada há agora uma coisa inventada de sumos e vitaminas. Acabou-se o empregado a dormir abraçado à máquina de café e as queijadas. Agora há shots de espargos, smoothies e detoxes de vitaminas. 
Mesmo em frente à Adega dos Lombinhos há uma loja espanhola de Donuts descrita como “tradicional pastelaria norte-americana”. Serve pizzas em baguette ao almoço. Ali perto, na Rua Condes de Monsanto, a extinta Merendinha deixou de servir salgados, sopas e leitão para passar a vender sushi, chao min, chop suey e leitão. 
A Adega dos Lombinhos, o senhor João, o senhor Eduardo, a mulher e um quarteirão inteiro vão ser despejados porque sim: porque a seguradora Tranquilidade, proprietária do imóvel, disse “sim” a uma proposta de um fundo de investimento imobiliário do qual a seguradora é a única subscritora. Com esse “sim”, desaparecem lojas, cafés, restaurantes, pessoas e a Associação Portuguesa de Barbearias, Cabeleireiros e Institutos de Beleza. No mesmo lugar vai nascer um hotel de quatro estrelas da cadeia Intercontinental, um dos 26 projetos licenciados para construção na Baixa de Lisboa. Em 2008, a Baixa tinha cinco hotéis. 
Os clientes, dos habituais aos esporádicos, espantam-se com desaparecimento da Adega. “Como é que se faz uma coisa destas a alguém?”, suspiram. “Obras profundas”, suspira de volta o senhor João, por esta hora cansado de repetir a mesma lengalenga. É essa a justificação para o despejo, obras profundas do prédio, um argumento facilitado pela nova lei das rendas. Os donos e empregados saem com uma pequena indemnização e sem direito a subsídio de desemprego.
Logo à saída da Adega dos Lombinhos há uma loja chamada Portuguese Stuff. Lá dentro há o mesmo que encontramos em dezenas de outras lojas de souvenirs, incluindo globos de neve com a Torre de Belém e o Padrão dos Descobrimentos. 
Em Lisboa não neva. Na montra da Portuguese Stuff a bandeira de Portugal está ao contrário. A calçada à portuguesa está a ser substituída por pedra lioz. E a Adega dos Lombinhos fecha a 31 de Outubro.

Luis Leal Miranda in Carrossel, 30.09.13

Sem comentários: