terça-feira, dezembro 31, 2013

quando o último se confunde com o primeiro

 "o primeiro dia", sérgio godinho

treze não é azar

um ano de d. quixote, de livros, livros e mais livros. de ciências sociais, de gestão e, sobretudo, das mesmas pessoas.
londres é londres, bristol é ainda mais do que isso. passeios no frio,  paredes pintadas, taggadas e desenhadas, amigos antigos e ruas novas.
o regresso e a surpresa, um golpe inesperado e uma mudança. há sempre tempo para a mudança. mas, ao menos, que seja eu a escolher.
a universal, a música, o som, as palavras e as pessoas, novas pessoas.
ensaios, fotografias, filmagens e concertos. o processo criativo aqui ao lado.
mais um ano, mais uma festa. e o verão tão perto.
julho dos dias que seguem noite dentro.
o cinema aqui ao lado, o cinema a dormir ao meu lado.
a reentré com música portuguesa, com música do meu passado.
e o cinema volta à cidade, mesmo que seja a outra.
paris sera toujours paris, os national serão sempre os national, os crepes, o couscous e os croissants serão sempre paris.
doze é benfica, tatuagem e festa.

e temos o treze que foi de mudança, não foi azar, foi uma sorte. venha o catorze.

quarta-feira, dezembro 11, 2013

nadir

nadir afonso (1920-2013)


GARE DE AUSTERLITZ, ACRÍLICO SOBRE TELA, 96X134CM


quinta-feira, dezembro 05, 2013

mandela


a liberdade não ficou presa na cela 466/64 (link). a história agradece! 

terça-feira, dezembro 03, 2013

O bom e o mau socialista

O bom socialista é aquele que em diferentes circunstâncias diz as coisas sensatas que a direita gosta de ouvir: que é preciso rever a Constituição, fazer um pacto de regime, negociar um consenso com o Governo sobre as medidas de austeridade.
O bom socialista defende que “ o arco da governabilidade” se restringe à direita e ao PS.
O bom socialista revela abertura para um eventual governo de coligação com os partidos da direita, ou só com o CDS, ou uma reedição do “bloco central”.
O bom socialista é sensível, atento e moderno quanto à necessidade de imprescindíveis cortes e mudanças na Saúde, na Educação e na Segurança Social, tendo em vista diminuir o peso do Estado e dar lugar aos privados com apoio público.
O bom socialista aceita as “reformas” que tendem a transformar em assistencialismo a garantia de direitos sociais pelo Estado.
O bom socialista colabora em medidas que desvalorizam o trabalho em nome de um pretenso aumento da competitividade.
O bom socialista dá prioridade à estabilidade financeira em prejuízo do desenvolvimento económico e da coesão social.
O bom socialista aceita o aumento das desigualdades como consequência inevitável da globalização e considera que não há alternativa.
O bom socialista pensa que a divisão entre esquerda e direita não passa de um arcaísmo.
O bom socialista tem um vocabulário cuidado e evita palavras inconvenientes, não diz roubo, diz cortes, não diz desemprego, diz requalificação, não diz empobrecimento, diz ajustamento. E também não lhe ocorre falar em esquerda ou em socialismo, para além de se coibir, por uma questão de educação, de usar a palavra direita.
O bom socialista respeita a duração dos mandatos, haja o que houver, pois acha que a estabilidade política é um fim em si mesmo, ainda que à custa de instabilidade e crise em todos os sectores.
Obviamente o bom socialista não critica o senhor Presidente da República, nem a troika, nem os mercados, nem as instituições europeias, nem a bondade das políticas da senhora Merkel, mesmo que elas levem o país à ruina.
O bom socialista procura dizer frases que o ponham com setas para cima nos jornais ditos de referência. E acredita que o estatuto de bom político só lhe pode ser conferido pela direita.
O bom socialista não pode sequer ouvir falar de convergência com os partidos à esquerda do PS.
O bom socialista acha que o dr. Mário Soares é o maior político português, mas não devia ir para a Aula Magna promover iniciativas tendentes à convergência e mobilização dos descontentes com a política do governo.

O mau socialista teima em defender a Constituição, o Tribunal Constitucional e coisas tão arcaicas com o Serviço Nacional de Saúde, a Escola Pública, a Segurança Social, os direitos laborais, o direito à cultura, a igualdade de oportunidades.
O mau socialista persiste em dizer a palavra socialismo, repete constantemente a palavra esquerda, opõe-se a governo de coligação dentro do “arco da governabilidade” e recusa-se a fazer do PS o terceiro partido da direita.
O mau socialista acha que os direitos sociais são inseparáveis dos direitos políticos e que não há estabilidade política sem estabilidade e coesão social.
O mau socialista entende que nenhum órgão de soberania deve andar com outro ao colo e que o papel essencial do Presidente da República é ser o garante do regular funcionamento das instituições e o Presidente de todos os portugueses.
O mau socialista defende que a confiança dos eleitores é mais importante que a confiança dos mercados e que estes não podem sobrepor-se nem à democracia nem ao Estado.
O mau socialista vê a Europa como um projecto de paz e de prosperidade entre Estados soberanos e iguais e não como uma submissão dos mais frágeis ao mais forte.
O mau socialista tem a indiscrição de querer saber perante quem é que a troika responde e quem avalia as suas políticas. E pensa que neste momento o processo democrático e institucional da construção europeia está interrompido.
O mau socialista acredita que ser europeu não é dissolver a Pátria.
O mau socialista continua a considerar que a razão histórica de ser do socialismo é a emancipação politica, social, económica e cultural dos trabalhadores e de todos os desfavorecidos e oprimidos.
O mau socialista dá razão ao Papa Francisco quando este denuncia que o actual poder económico está a transformar-se numa nova tirania.
O mau socialista é politicamente incorrecto e sustenta que há sempre alternativas.
Eu, pecador, me confesso: sou um mau socialista.

Manuel Alegre in Público, 03.XII.13