quinta-feira, março 27, 2014

dezassete minutos

é o regresso à viagem de sempre e, porém, o trajecto não parece mais o mesmo. são quinze páginas lidas na diagonal, duas de esboços de apontamentos, um telefonema para a família, uma discussão política, uma troca de lugares-comuns-sobre-futebol-à-segunda-de-manhã, uma dezena de trocas de olhares que nunca dão em nada. são dezassete minutos. se hoje estes dezassete minutos contassem para alguma coisa. as paragens são as mesmas mas eu já não sou estes dezassete minutos. fiquei algures num apeadeiro desconhecido, com outras pessoas, outras histórias por contar. estes dezassete minutos eram tão meus,  conhecia-os, sabia-os na ponta do tic tac, reconhecia as travagens do comboio, a velhota dos sacos da reboleira, a criança de galochas amarelas que saía sempre à última na amadora, o pica, era o pica, que adormecia depois de benfica. dezassete minutos concentrados em mil histórias e olhares cansados. foram dezassete minutos de regresso ao passado, assim, nem rápido nem lento, só pouca-terra, pouca-terra.

terça-feira, março 25, 2014

em linha


variação sobre uma cidade

nova iorque é tudo o que eu esperava. aliás, este bar é a nova iorque que sempre vivi nos olhos de outros e nas tuas palavras. uma cerveja fresca, uma cortina de fumo e três velhos senhores do jazz. um homem de olhar cinzento e chapéu descaído atira-me uma pergunta e mal respondo. da europa, sim, de férias, por umas semanas. baixo a cabeça. a minha perna mexe ao ritmo do contratempo do contrabaixo e sorrio. na mesa junto à porta, um casal troca carinhos e promessas que todos sabemos que nunca serão cumpridas. nenhum relação que nasça no jazz pode ter futuro. foi assim comigo, será assim com todos. conheci-o numa noite de fumo assim, contudo, eram apenas duas vozes nessa sala. piano e um sopro. não me lembro, ou não me quero lembrar. quero esquecer, sim, quero esquecer. falámos a noite toda, dos meus planos, dos teus planos, dos vinis de jarrett, evans e davis, daqueles solos de bateria do moço novo. vimos o concerto dele na gulbenkian poucos meses depois e tudo parecia bem. a tua mulher já era ex-, o meu pai já era e eu tornara-me um pouco mais indiferente, mais fria. é mais simples assim, dizias. as pessoas complicam tudo e não há melhor do que os silêncios  e a razão. tens razão, amor, dizia-te. foram anos, muitos anos, a viver a vida a dois, sem outros. só música, álcool, e sexo. prometeste que iríamos a nova iorque viver uma noite das nossas num bar destes. não iria falhar, não podia falhar. vivi a vida à espera disto. eu estou aqui, agora, e tu?

quinta-feira, março 13, 2014

don't look behind you

uma manhã

falta-me a tua voz rouca pela manhã, o cheiro a perfume de homem e o beijo de adeus-até-mais-logo. e sobra-me um puxar de lençóis até cima, um enroscar no canto da cama, um esconder debaixo de três, quatro ou cinco almofadas. está  ai o novo dia, o seguinte, o próximo, o amanhã que insiste em aparecer para almoçar. lá fora, os pássaros chilreiam canções de amor, cá dentro, a rádio descreve a guerra próxima. e eu, sozinha e só, sem as tuas mãos quentes, sem os teus truques, sem os teus silêncios. falta-me uma música, um livro, uma peça, um filme, algo que explique o que é isto. como, quando, onde, porquê? deixei a jornalista à porta desta relação e agora não encontro o caminho de volta. agora não te encontro. agora não te tenho aqui. agora, só não queria que fosse agora. 

segunda-feira, março 03, 2014

la vie devant soi



«La première chose que je peux vous dire c'est qu'on habitait au sixième à pied et que pour Madame Rosa, avec tous ces kilos qu'elle portait sur elle et seulement deux jambes, c'était une vraie source de vie quotidienne, avec tous les soucis et les peines.»

Romain Gary


Mário Coluna, o primeiro homem


O último livro, e inacabado, de Albert Camus chama-se O Primeiro Homem. É um romance autobiográfico. Um casal de colonos europeus, pobres, muito pobres, por um caminho agreste da Argélia. A mulher está grávida e o pastor árabe que os acompanha diz: "Tu vais ter um filho. Que ele seja belo." Camus, que não era crente, descreve o seu próprio nascimento como uma cena natalícia, em homenagem à mãe que era iletrada e religiosa. Nós somos sempre o primeiro homem, a esperança da redenção. Na década em que Camus morreu (com o manuscrito inacabado de O Primeiro Homem espalhado na mala do carro enfaixado numa árvore, 4 de janeiro de 1960), dois homens que representavam as duas superpotências rivais, o soviético Yuri Gagarine ("a Terra é azul", 1961) e o americano Neil Armstrong ("um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a Humanidade", 1968) contaram o mesmo sonho. O primeiro homem, a visão, o salto. Nem sempre essas coisas se passam grandiosas como as acima descritas, nem sempre recebem o Nobel da Literatura ou ficam marcadas como marcos históricos. E, no entanto, movem--nos. Eu tive a sorte de amar desesperadamente a minha terra e por isso estar atento aos sinais anunciadores. Naquele década, houve muitos domingos e quartas-feiras europeias em que vi jogadores de um jogo simples e quem mandava neles era naturalmente o chefe. Ele não era branco, como eram sempre, até então, os que mandavam. Mário Coluna, primeiro homem.

Ferreira Fernandes in DN