terça-feira, março 25, 2014

variação sobre uma cidade

nova iorque é tudo o que eu esperava. aliás, este bar é a nova iorque que sempre vivi nos olhos de outros e nas tuas palavras. uma cerveja fresca, uma cortina de fumo e três velhos senhores do jazz. um homem de olhar cinzento e chapéu descaído atira-me uma pergunta e mal respondo. da europa, sim, de férias, por umas semanas. baixo a cabeça. a minha perna mexe ao ritmo do contratempo do contrabaixo e sorrio. na mesa junto à porta, um casal troca carinhos e promessas que todos sabemos que nunca serão cumpridas. nenhum relação que nasça no jazz pode ter futuro. foi assim comigo, será assim com todos. conheci-o numa noite de fumo assim, contudo, eram apenas duas vozes nessa sala. piano e um sopro. não me lembro, ou não me quero lembrar. quero esquecer, sim, quero esquecer. falámos a noite toda, dos meus planos, dos teus planos, dos vinis de jarrett, evans e davis, daqueles solos de bateria do moço novo. vimos o concerto dele na gulbenkian poucos meses depois e tudo parecia bem. a tua mulher já era ex-, o meu pai já era e eu tornara-me um pouco mais indiferente, mais fria. é mais simples assim, dizias. as pessoas complicam tudo e não há melhor do que os silêncios  e a razão. tens razão, amor, dizia-te. foram anos, muitos anos, a viver a vida a dois, sem outros. só música, álcool, e sexo. prometeste que iríamos a nova iorque viver uma noite das nossas num bar destes. não iria falhar, não podia falhar. vivi a vida à espera disto. eu estou aqui, agora, e tu?

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