segunda-feira, novembro 03, 2014

dia um

ele pintava melhor quando chovia. e quando estava frio e o vento arrastava os guarda-chuvas reformados. era um apaixonado pelo inverno, pela solidão que aquela noite às cinco da tarde lhe dava. acordava tarde, quase não via a luz, nem ouvia os gritos das crianças pela manhã. aquecia as cores num quadro grande e atacava as sombras em todos os pormenores que só ele via. ele pintava melhor quando chovia. era um filho do inverno, nascido no dia de todos os santos, abandonado na igreja da terra, um ano depois. era esse o seu terramoto inultrapassável. não havia futuro no seu traço e ele só queria fechar os olhos daqueles que pintava. não há alma na minha pintura e ainda bem, confessava àqueles que se queixavam que só queriam um quadro colorido para pendurar no escritório. lá fora chovia, muito, era um outono triste e ele sorria. uma janela aberta, uma corrente de ar, um lamparina que não devia estar ali. acabou assim, num dia de chuva. uma triste história sem alma, como as que pintava. 

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