quarta-feira, novembro 05, 2014

V

fomos uma só até ao fim. não te esqueças, mãe. os teus berros, as tuas raivas, a tua dor. não te esqueças de mim. do meu cabelo revolto, molhado da chuva que caia pelo cipreste do nosso jardim. não me esqueço da fixação que tinhas com a opinião dos outros. não me esqueço da luta constante para ter um minuto de silêncio em casa. os russos, sempre os russos a tocar na biblioteca. noite inteira. as noites brancas que não te apagavam os olhos. eu não dormia, mãe. eu fechada sobre mim mesma e tu esquecida de mim. não me esqueço, mãe. um curso tirado a pedido, um dia para o mundo ver. "uma investigadora de renome internacional, ainda vai ser nobel", dizias à senhora rosa da frutaria. não queria, mãe. nem quando caiste no esquecimento, eu me esqueci disto. não me esqueças agora, mãe. não te esqueças de tudo. não me esqueço da última nota, do derradeiro suspiro. não me esqueças, mãe.

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