sábado, novembro 08, 2014

VIII

passos, serão passos a esta hora? os corredores estão completamente vazios e só se ouvem os sons das máquinas que prendem uma e outra pessoa à vida. e uns passos, juro que oiço passos. deixo o computador, as folhas dos apontamentos e o telemóvel que não toca em cima da mesa. passo pela jovem enfermeira que dormita e atravesso o corredor da ala b. as luzes trémulas e um cheiro a morte ao virar da esquina. ao fundo, bem ao fundo, uma sombra. "quem está aí?", murmuro. aproximo-me passo a passo e já só ouço os meus passos. "quem está aí?" e os meus passos. "sou eu, dra. sou apenas eu". da sombra destacam-se uns olhos azuis, um cabelo desgranhado e um andar cambaleante. ele olha-me nos olhos e eu perco as palavras. atiro um "volte para a sua cama, pedro." mas sei que tudo isto está errado, que estou perdida. que quero perder-me naqueles olhos azuis e deitar-me com ele. eu, ele, a minha vida, a sua morte.

Sem comentários: