terça-feira, novembro 18, 2014

XVIII

desculpa não ter dito nada antes mas tenho andado a mil. a mãe também não disse nada por isso pensei que não fosse urgente. se soubesse como têm sido os meus dias lá no hospital e no laboratório, ando a morrer. "também eu, filha, também eu. estou para morrer." isso estamos todos, um dia. "eu estou a morrer, filha. eu estou a morrer. vou perder a memória, os movimentos, tudo. vou morrer esquecida do que é a vida. e preciso de ti, quero-te a meu lado nesses meses finais. dizem que devo ter um ano disto mas nem seis meses de cabeça. ajuda-me!" não sei o que te diga. não sei. não podemos estar quatro anos sem falar, sem estar juntas e agora pedires-me assim ajuda. não te tive quando o carlos morreu, não te tive quando o pedro morreu. nunca estiveste lá. não me podes pedir isto, mãe. não sei. não quero. não me olhes assim, mãe.

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