terça-feira, dezembro 15, 2015

o jacinto

do café central até casa da dona irene não devem ser mais de vinte minutos de bicicleta. juro que mal andava até à morte do seu marido mas ela agora está sozinha e sozinha fica. eu estava a ficar gordo, tinha dores nos joelhos e até me faz bem esta voltinha. dona irene faz sempre uns bolinhos maravilhosos e o chá é de canela. falamos a tarde toda e ninguém diria que um homem do campo pode ter tanto para contar a uma senhora. outro dia levei-lhe umas flores, uns jacintos, o que não deixa de ser engraçado porque é o meu nome. ela não reconheceu, coitada, mas agradeceu muito e até fez um bolo de laranja no dia seguinte. infelizmente sou alérgico e andei três dias com um inchaço na garganta que parecia papeira. rimo-nos muito e assim ficámos com mais uma história para contar. um dia iremos os dois à grande cidade, eu já lá fui mas foi há tanto tempo. fui às sortes ainda no tempo da outra senhora. dona irene, que já lá viveu, acha isso tudo muito divertido e garante-me que mostra a cidade toda, até mesmo as lojas finas. já lhe disse que não preciso disso, quero mesmo é ver as de ferragens porque têm material do bom, daquele que vem do estrangeiro. e ela ri-se. ela ri-se muito, quando não chora porque o filho é um pulha que só quer o dinheiro do falecido. era um bom homem, o doutor duarte mello. mello, com dois ls, que isto é gente que se trata bem. o rodolfo do café diz que eu devo ter cuidado com ela, que ela tem alguma fisgada, já lhe disse que ele é apenas um burro velho que não tem onde cair morto e não percebe que o amor não escolhe idades. eu bem sei, que já vi uns filmes estrangeiros sobre isso. o rodolfo é um jarreta que só pensa em beber e tem saudades de eu já não passar tardes com ele lá no café. paciência!, ganho eu e mais fica da minha reforma. dona irene é uma querida, uma senhora e sabe muito. ela merece o melhor e por ela, por ela, oh, por ela faço tudo. dona irene é um amor, um amor como nunca tive, e logo uma senhora. outro dia deixou-me pôr a mão na sua perna. percebi que estava com vergonha e nem procurei os seus olhos, fiquei só assim, com as minhas mãos de homem na sua perna feminina. as coisas são assim, no campo tudo leva tempo. ela merece o melhor e por ela, por ela até limpo a minha arma. dona irene garante-me que seu filho vem cá na próxima semana. o biltre! pode ser que tenha um azar. dona irene, como gosto de dona irene. como é bom estarmos assim juntos, assim perto. do café central até casa da dona irene não devem ser mais de vinte minutos de bicicleta.

sexta-feira, dezembro 04, 2015

Dias bonitos

"Está um lindo dia", diz a voz de homem. É de manhã e ele tem à frente mais de uma centena de funcionários da empresa que dirige. Estão ali para ser esclarecidos sobre o destino da dita. Porém, antes de começar um discurso de quase duas horas, o homem põe uma condição: só pode ficar quem garantir que confia nele: "Quem não confia pode ir já embora."
Ninguém sai, aparentemente. E o homem prossegue, certificando ser um bom negociador, o que, explica, quer dizer "ser mais mafioso que os mafiosos." Os mafiosos, sabe-se de livros e filmes, fazem ofertas "irrecusáveis". As aspas em "irrecusável" advêm da essência do ser mafioso: a ameaça e a coação. Crimes, portanto. A dada altura, o homem diz àquelas pessoas que vão na sua maioria ser despedidas e têm de assinar um papel em que prescindem do pré-aviso. É que o pré-aviso, aduz, implica pagar mais um mês de salários, e esse dinheiro não existe. Devem pois acreditar nele e prescindir disso: será a única forma de os despedidos poderem receber as indemnizações, as quais só serão pagas se os que ficam se dispuserem a trabalhar num projeto que ainda não sabem qual é. Há pessoas, poucas, que timidamente questionam. Quantos vão ser os "dispensados"? "Dois terços." É possível não assinarem nada já? "Não, todos têm de assinar, ou acaba tudo aqui". No fim, o homem pede palmas para os acionistas que investiram no projeto e saíram "para não perderem mais dinheiro". Palmas há. E depois, quando ele diz que "vai descansar um bocado", há mais. Palmas. 
Sabemos isto porque o homem mandou gravar o plenário - di-lo no início da conversa - para, supostamente, as pessoas poderem "levar para casa e ouvir". A seguir, a gravação foi colocada no site da empresa. Não sabemos se foi pedida aos trabalhadores autorização para tal; não se percebe qual o objetivo. Quiçá o homem tem orgulho no que fez; deve tê-lo, porque, como refere várias vezes, a mulher e filhos estão ali, a assistir.
Isto, que parece mentira, não se passou numa empresa têxtil, nem no Bangladesh. Passou-se numa redação em Portugal. A do Sol e i, jornais que vão fechar este mês. Quem ali estava eram, portanto, jornalistas. E o homem, que se chama Mário Ramires, já foi jornalista também. Jornalistas - esses profissionais dos quais se exige que saibam duvidar, perguntar, sindicar todos os poderes, resistir a pressões, ser independentes, pugnar pelo bem público e pelos direitos das pessoas e só se guiarem pelo seu código deontológico e a sua consciência. Heróis de fábula, em suma - ou que pelo menos façam por distinguir o certo do errado, o legal do ilegal, não aceitando a primeira patranha. Ocorreu isto na mesma semana em que a TV do Correio da Manhã passou imagens dos interrogatórios do ex ministro Miguel Macedo e do ex diretor do SEF Manuel Palos. Como se fosse a coisa mais normal do mundo. E se calhar é, num mundo em que estas coisas acontecem e tanta gente - a começar pelos jornalistas - parece achar normal.
 Fernanda Câncio, in DN 04.12.15

terça-feira, dezembro 01, 2015

quarta-feira, novembro 25, 2015

pedro, o feliz

pedro era um miúdo normal. tinha mil amigos e sabia bem qual era o preferido, o segundo, terceiro, quarto, tudo bem definido e contabilizado, mesmo até ao fim, até chegar ao gordo da rua da avó, que era divertido apesar de ser gordo. "os gordos são sempre assim", dizia a avó antes de acrescentar "menos a badocha da dona laura, da praça, que rouba sempre na fruta". pedro era feliz, andava nos escuteiros, tinha boas notas, recebera uma fantástica bola de couro. esta era mesmo redonda! o jaime tinha medo dela e deixava sempre entrar se pedro rematasse à figura. lia livros com ladrões e bandidos, que os policias eram uma seca e histórias de príncipes e donzelas eram conversa da prima francesa. pedro sorria, sorria muito e ria, ria sobretudo quando o avô contava aquelas histórias assustadoras da mina. ele esticava aqueles braços enormes, abria umas mãos sem fim e agarrava-o. as histórias do avô acabavam sempre assim, um abraço que ia daqui até ao fundo da mina, ao fim do mundo, daqui até ao país com nome estranho onde os pais estavam, onde eles se esconderam por causa de umas coisas da política. "talvez um dia eles voltem, pedro, e ai vamos todos juntos ver o elefante ao zoo. e ele vai tocar a sineta só para ti, prometo." a felicidade na ponta de uma tromba parece piada de banda desenhada mas os miúdos são assim simples e pedro era assim. feliz.

terça-feira, novembro 24, 2015

ter paus na boca

casa de pó

a velhice encheu-me a casa de pó e de silêncios. os teus olhos azuis são o mar que nos espreita todas as manhãs, são a última recordação de uma vida que está longe. tão longe como as palavras de amor que já não trocamos. houve carinho, claro, eu amava-te mas era amor pelo conforto que uma vida em comum nos dá. pó, há pó por todo o lado. uma teia de aranha, aqui e ali, um soalho que range e pratos riscados à espera de mais um almoço frio. vais e vens da vila e eu por aqui fico. fico presa a uma cadeira que não roda, apenas me prende. o céu é azul e acaba ali onde o mar se perde. dizes que já lá fomos, que foi o nossa primeira viagem depois do casamento, não sei, não acredito, duvido mesmo. os tempos eram outros, havia respeito. eu era nova, ingénua e ansiosa pelo casamento que estava escrito nos romances de cordel, eras um cavalheiro, eu uma princesa, e a nossa história só acabaria quando as palavras emudecessem. silêncio. a nossa casa é um silêncio feito de barulhos velhos e eu desgosto. onde estão os teus olhos azuis? não devias ter regressado já da tua volta? fecho os olhos, estou cansada, exausta, oiço o vento lá fora, o mar a bater nas rochas, um carro ao longe, uma ave a grasnar e tudo me ensurdece. tenho saudades do teu silêncio. não sei viver com as tuas palavras, não sei viver sem o teu silêncio. que dia é mesmo hoje?

terça-feira, outubro 20, 2015

com duas pedras de gelo

a música está riscada, ouvem-se ruídos difusos e a melodia perde-se algures nos golpes que rasgam o terceiro tema. luís já a ouviu mil vezes, se calhar é por causa disso ou dos copos que insistem em cair  em cima do vinil que hoje não se ouve nada. mesmo nada. está cansado. não se lembra como chegou ali. 
era um jantar de trabalho, ou então com colegas de trabalho, ou se calhar eram apenas conhecidos do prédio. um copo e outro copo, a comida não chegava e outro copo. ria-se alarvemente, contava histórias divertidas, ele pelos menos assim achava, e olhava para a empregada com um ar lascivo. estava a ser uma noite à antiga. e o copo que insistia em ficar vazio. "mais um, por favor." a dona carlota, gordurosa dona do restaurante, já sabia como isto acabava pelo que deu sinal ao pedro, o empregado das piadas fáceis, para servir luís mais lentamente. a história azedou, ele apercebeu-se e insistia em dizer que quem mandava ali, quem mandava ali era o cliente. "e mais um, por favor." a comida não chegou, o uísque sim. sentia-se numa festa universitária com o cansaço de um velho que espera pela morte. e depois caiu, ou melhor, deve ter caido.
um galo, uma dor do lado esquerdo da cabeça e uma branca. total. que horas são? espreita o relógio. não é tarde. mas sente que dormiu umas horas no chão da sala, tem o corpo dorido, partido, e há vómitos no tapete. precisa de ouvir música. aquela música.
aquela música lembra-lhe o passado, o primeiro copo, a primeira morte, a primeira pessoa, a segunda música. luís quer parar o tempo naquele passado distante mas não há pause neste leitor de vinil, não há pause, não há vinil, mas há uisque. e gelo. tem sede e ainda faltam tantas horas para o sol nascer.

segunda-feira, outubro 19, 2015

deixa ser

Luaty e a vergonha Angola-Portugal

1. Não sei como José Eduardo dos Santos dorme à noite. Não sei como Isabel dos Santos dorme à noite. Não sei como milhares de homens e mulheres de negócios dormem à noite. Não sei como o Governo português dorme à noite. E o PCP podia arranjar melhor companhia do que o governo português nesta matéria, a greve de fome de Luaty Beirão. Milhares de comunistas portugueses presos, torturados e mortos em nome da liberdade merecem muito mais.
2. Não há número que diga tanto sobre um país como a taxa de mortalidade infantil. Angola tem a pior taxa de mortalidade infantil do mundo: 167 crianças em 1000, o que quer dizer que uma em cada seis crianças angolanas morre antes dos cinco anos (Unicef). Quando a taxa de mortalidade infantil de um país é alta, isso é uma urgência. Mas quando ela é a mais alta do mundo num país dominado por uma oligarquia milionária isso é uma espécie de crime por negligência na forma continuada. E não faltam dados contundentes sobre o statu quo em que essa espécie de crime acontece, por exemplo, o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU (calculado a partir da esperança de vida, taxas de escolaridade e rendimento nacional bruto). No último relatório, que abrange 187 países, Angola está em 149.º lugar. Ou seja: em Angola, segundo maior produtor de petróleo da África subsariana, oficialmente uma democracia presidencialista com a qual Portugal tem estreitíssimos laços económicos, vive-se pior do que em quase todo o planeta, incluindo países em guerra, ditaduras, catástrofes. E a estes três números (mortalidade infantil, desenvolvimento humano, produção de petróleo) podemos acrescentar mais dois para completar a mão: o Presidente e líder do MPLA, José Eduardo dos Santos, está há 36 anos no poder; e a sua filha Isabel dos Santos é a mulher mais rica de África, com 3,2 mil milhões de dólares.
3. Foi neste país que, a 20 de Junho passado, a polícia do regime deteve sem mandato 15 jovens que estavam numa casa de Luanda a discutir a situação política. Tinham dois livros com eles, Da Ditadura à Democracia, de Gene Shar, e Ferramentas para Destruir o Ditador e Evitar Nova Ditadura — Filosofia política da libertação para Angola, do jornalista angolano Domingos da Cruz. Os 15, incluindo Domingos, foram acusados de preparar um golpe de Estado. Ao fim de quase quatro meses, continuam presos, sem culpa formada e sem julgamento. Vários fizeram greves de fome, um deles, Luaty Beirão, não desistiu. No dia em que escrevo, quinta-feira, 15 de Outubro, Luaty está sem comer há 25 dias. Terá perdido cerca de 20 quilos, não consegue beber água, foi posto a soro no hospital-prisão, tudo isto enquanto a polícia do regime reprimia vigílias de solidariedade e protesto. Luaty é um activista com experiência, foi preso logo a 7 de Março de 2011, dia-símbolo para o levantamento dos jovens angolanos inspirados pela Primavera Árabe. Entre 2011 e 2015, viu o regime desdobrar-se em raptos, espancamentos, tentativas de suborno, ameaças a familiares, perseguições políticas, tudo para tentar combater activistas. A posição de Luaty é clara: manter-se em greve enquanto os 15 estiverem presos, contra a lei, mesmo a lei de Angola. Visto que Angola, descontando censura, prisões arbitrárias, raptos, espancamentos, suborno, ameaças, perseguições e repressão, é oficialmente uma democracia. Os observadores internacionais nem têm achado prioritário observar as eleições angolanas. Como Luaty diz, na entrevista que o PÚBLICO transcreveu e disponibilizou em vídeo, primaram pela ausência.
4. Foi bom ter visto, esta quarta-feira, em Lisboa, centenas de pessoas que fizeram o contrário, estiveram lá, na vigília convocada pela Amnistia Internacional, com a cara de Luaty, e dos outros 14 (Osvaldo Caholo, Afonso Matias, Albano Bingobingo, Nelson Dibango, Sedrick de Carvalho, Domingos da Cruz, Inocêncio António de Brito, Arante Kivuvu, José Gomes Hata, Manuel Baptista Chivonde Nito Alves, Fernando Tomás, Nuno Álvaro Dala, Benedito Jeremias e Chiconda ‘Samussuku’). Bom ter visto lá angolanos como Rafael Marques de Morais, José Eduardo Agualusa, ou Kalaf, a cabo-verdiana Mayra Andrade, e tantas dezenas tão jovens ou muito mais do que aqueles que estão presos. Era uma pequena multidão com música, palavras e imagens. Mas não sei onde estavam, nem o que pensam, angolanos que estiveram tanto tempo presos pelo que pensaram e escreveram, como Luandino Vieira. Gostava de saber.
5. Enquanto Luaty, cidadão angolano e português, pode morrer a qualquer momento nestas circunstâncias, o Governo português tem, naturalmente, questões a debater, equacionar e mesmo ponderar, na sua relação com o Estado democrático de Angola, e portanto, até à hora de fecho desta crónica, que se saiba, fez exactamente zero. “Considera o Governo de Portugal a possibilidade de apresentar uma queixa junto do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas e de todas as demais instâncias internacionais competentes devido à violação de direitos humanos essenciais por parte do Estado angolano neste caso concreto afectando um cidadão português?”, foi a pergunta de Pedro Filipe Soares, deputado do Bloco de Esquerda. Através do ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, a resposta do Governo português, até à hora de fecho desta crónica, era: “Nós estamos a acompanhar a situação do ponto de vista humanitário, visto tratar-se de uma matéria interna de Angola no que diz respeito ao problema da averiguação se existe ou não existe uma infracção de carácter penal, e nisso não nos imiscuímos.”
6. A declaração de Machete foi feita segunda-feira. Terça, o Bloco de Esquerda apresentou na Assembleia Municipal de Lisboa este voto: “1. Exprimir solidariedade a Luaty Beirão, sua família e amigos; 2. Exprimir solidariedade para com todas pessoas detidas no dia 20 de junho; 3. Recomendar a imediata libertação das pessoas detidas no dia 20 de junho; 4. Remeter este voto aos órgãos de soberania e aos grupos parlamentares representados na Assembleia da República; 5. Remeter este voto à Embaixada de Angola em Portugal.” Pois, o PCP votou contra. E não só votou contra, como resolveu contrapor um voto que diz assim: “Apelar às autoridades angolanas, no quadro do respeito da sua soberania e ordem jurídico-constitucional, a consideração da situação humanitária de Luaty Beirão.” Ricardo Robles, do Bloco, argumentou: “Não é uma situação de cariz humanitário. É uma questão política. Ele é um preso político e está em risco de vida. Um preso político é um preso político. Em Angola, na China, em Cuba, nos Estados Unidos, na Turquia ou na Palestina. É um preso político e devemos respeitá-lo, porque houve tantos presos políticos no Partido Comunista Português e tanto respeito que eles merecem.” Mas o efeito, no PCP, foi exactamente zero, em consonância com a posição do Governo PSD-CDS. Para um partido que tanto preza a coerência, que desonra à sua própria história, a milhares e milhares de comunistas que deram tudo pela liberdade.
7. Uma das coisas que Luaty diz no vídeo que o PÚBLICO pôs online esta semana é que um filho não é responsável pelo pai. Ele, Luaty Beirão, é filho de João Beirão (entretanto falecido), um próximo de José Eduardo dos Santos a ponto de ter dirigido a poderosa Fundação Eduardo dos Santos. Luaty tomou outro caminho; depois de estudar em França e Inglaterra, onde se tornou politicamente activo em manifestações e ocupações, fez uma viagem a pé de Lisboa a Luanda, com dois quilos de frutos secos e cem euros no bolso; conheceu parte de África, lentamente e sem rede; e de volta a casa manteve uma intervenção constante como rapper e activista. O extremo oposto do que aconteceu com a verdadeira filha do regime que é Isabel dos Santos, dez anos mais velha. Não só Isabel parece dormir bem com todos aqueles números sobre Angola, como a sua fortuna tem crescido inversamente às estatísticas dos miseráveis. E, como a Forbes detalhou numa investigação conjunta de Kerry A. Dolan, uma veterana da revista americana, e o incansável jornalista e activista angolano Rafael Marques de Morais, a presidência do pai favoreceu o império da filha. Isabel tem fama de trabalhar sete dias por semana para não deixar em mãos alheias o património conquistado, é um talentoso caso de estudo, alguém disse mesmo que Harvard devia estudar o talento dela. Também está bem posicionada em Portugal: Galp, BPI, NOS, BIC. Cada um faz da sua vida o que faz. O melhor que posso esperar é que esta noite Isabel dos Santos não durma assim tão bem e José Eduardo dos Santos menos ainda, e quando esta crónica sair Luaty esteja em liberdade, com todos.

Alexandra Lucas Coelho in Público

quinta-feira, outubro 08, 2015

inside-out


açores 2015

"em bom, é assim:"

Em bom, é assim: "João amava Teresa que amava Raimundo/ Que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili/ que não amava ninguém. /João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,/ Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,/ Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes/ que não tinha entrado na história." Em bom, é assim, célebre poema assinado por Carlos Drummond de Andrade. Ao poema, ele chamou Quadrilha. Não, não é isso que estão a pensar, mas no sentido da tradicional contradança. Por isso me permito uma versão portuguesa, citando políticos, para aqui trazidos por nos darem música. Sai cantiga de escárnio e maldizer: Aníbal apadrinhava Pedro que casara com Paulo que desdenhava Pedro que piscava o olho a António que se encontrava com Jerónimo que se queria vingar de Catarina que também instigava António que não sabia o que fazer. Aníbal foi para o Algarve reformado, Pedro e Paulo continuaram casados, sonhando com umas terceiras núpcias, grandes como as primeiras, melhores do que as segundas, António hesitou na passagem de nível, olhou para a esquerda, olhou para a direita, foi talvez atropelado, apanhou talvez o comboio do poder, Jerónimo progrediu para 18 deputados, talvez até 19, e mesmo 12 era bom logo que fossem mais do que Catarina que invejou André Lourenço e Silva, que tinha um cão chamado Nilo e não entrou na história porque é deputado do PAN e só se interessa por periquitos.

Ferreira Fernandes in DN

sexta-feira, agosto 28, 2015

oito.mês.oito.

agosto começou. o sol é quente, a pele morena, o peixe brasa, há caracóis no prato e no cabelo dourado. o verão começou agora e as paixões são letras da festa do coreto. agosto é a prima francesa que sabe tanto sobre tanta coisa mas insiste em ter medo da osga e do cobra que eu sei que não são venenosas. claro que não são, comigo não há perigo. agosto começou agora e temos todo um mês para ouvir o tio zé a contar mil histórias em mil noites que são tão quentes como as memórias daquela áfrica de onde todos vieram. agosto é férias sem fim, é o mês que vive em todos os outros. o verão é agosto, é expo, é belém, francesinhas e uma tia beijoqueira que detesto. mas quem é ela? tia lurdes, como a avó que era um amor. aldeia que corta a grande cidade, gasosa que melhora o vinho, mão dada que me deixa apaixonado. "o meu querido mês de agosto" diz o primo rui que é dos filmes. talvez, não sei, mas garanto que se eu mandasse nisto tudo, e um dia vou mandar, agosto teria os 365 dias que merece. agosto acabou. hoje.

2º E

já tenho o número dela! o carlos do 7ºa deu-me o número porque é amigo do vizinho do 2ºf. gosto do carlos, sempre foi fixe e fica sempre na minha equipa. mas gosto mais dela. hoje vou ligar-lhe para casa e vou pedir para falar com ela. vou perguntar pela prova de global, ou pelos trabalhos ou mesmo se está melhor do pé. hoje vou ouvir a voz dela e talvez nem lhe diga nada. um silêncio apaixonado, daqueles que se lêem nos livros da minha madrasta. gosto das sardas dela, e sei que vou sentir as sardas na voz entre as palavras assopradas de quem usa um aparelho nem há duas semanas. gosto dela. dizem que isto é amor mas eu acho que não. isto é apenas o princípio de uma bela história que vai acabar quando eu souber montar a cavalo, falar francês e fizer com ela a viagem de finalistas. quero ser da turma dela e ser o melhor amigo. quero tudo com ela. quero aprender a amar com ela. tenho o número dela, o resto tem de ser fácil.

histórias com mar II

o silêncio por toda a casa, a mala por fazer, a manhã que está aí a chegar e ele que não chega. é a última noite até à próxima. que está longe. e ele que talvez não volte. dizem que vida de pescador é dura mas a de mulher não é menos. ele não volta. ele não chega. era um copo ou dois apenas. o telefone não toca e eu fecho os olhos. o sono não vem. ele sempre foi assim, ele é assim. pescador com porto mas sem batel. nada é dele, é tudo emprestado ao tempo, ao futuro incerto, à morte. li no jornal que ele é sagitário e são todos assim, se o jornal diz. quero-o de volta. preciso dele! amanhã ele vai-se e não sei quando volta. não me lembro da última noite, da última viagem, do último carinho, da última vez que não fui apenas uma continuação do passado, quanto mais da penúltima. a luísa da novela é igual, ele até a a ama mas não mostra, dizem que os homens são assim. o rodrigo era assim, são todos assim, os homens. ele não volta. talvez volte por esta noite mas não volta. quero os meus 30 anos mas eles não voltam. ele não volta. toca o telefone. é ele?

quinta-feira, julho 23, 2015

histórias com mar

na tua terra é diferente, não é? se quiseres podes começar a andar e só acabas nos urais, e isso se quiseres. na tua terra é melhor, tenho a certeza disso. e é por isso que não percebo qual a razão que te trouxe aqui. não percebes que isto é uma terra maldita? é uma terra que sofre de ter a água que outros não têm, que sofre de ter a chuva que outros desejam, que sofre de ter um mar que nos tira daqui mas nunca nos devolve. não entendo! vejo-te aqui, neste tasco perdido, a rir com a tua dentição completa, com as tuas frases cheias de palavras estrangeiras, com os teus olhos azuis de quem sempre amou o mar e não percebe. és tu quem não percebe que este mar é morte. estamos rodeados de morte. não há local nesta ilha onde não se veja a morte, onde não se veja o mar. não percebo porque não te percebo. tens as mãos macias de quem sempre esteve fechado num escritório, num gabinete, numa escola ou numa casa de mil empregados e muitos sorrisos. aqui é diferente, tudo é duro, tudo rasga as mãos e nenhum peixe é dado pelo mar. somos os presos desta ilha e eu não encontro a estrada para longe daqui. na tua terra é diferente, não é?

era a segunda à esquerda


açores 2015

mind da gap - em casa e fora de casa

quarta-feira, junho 24, 2015

são joão a dar música 24

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são joão a dar música 2

são joão a dar música 1

quarta-feira, maio 13, 2015

madalena palmeirim - em casa e fora de casa

terça-feira, abril 14, 2015

14 de abril

m. e j. são duas mãos dadas, um olhar cúmplice e uma longa história feita de silêncios por contar. está um sol bonito no jardim do torel, os dias sempre terminaram assim quentes, dóceis, acolhedores, neste pátio de casa. a idade pesa-lhes nas pernas, na respiração ofegante que cada degrau traz, nos cabelos brancos que se abanam em cada brisa de abril. dois cães a fugir, uma criança a chorar, duas amigas liceais que trocam juras de amizade eterna. um jardim é uma fotografia do presente, é o pause do que vivemos, é uma viagem ao âmago de um bairro. este jardim é deles, eles são este jardim. 2010, projecto10, s.josé, carrião, um jardim, passeios por mil parques, mil países, mil viagens e sempre o regresso àquele jardim, àquele fim de dia. está um dia bonito, meu amor., digo-lhe. está sim, meu amor., responde. sabes que hoje é dia 14?, pergunto. claro que sim. mas continua a parecer que foi ontem., sussurra. tanto anos vividos, tantos por viver. hoje é dia 14 e há festa no jardim, mas amanhã quero os teus pés nos meus outra vez, que a procissão ainda vai no adro e as noites de abril continuam frias.

quinta-feira, abril 09, 2015

Grupo Excursionista Vai Tu - APELO


A Direção informa que o prédio onde se encontra sediado o Grupo Excursionista Vai Tu, no nº 6 da Rua da Bica Duarte Belo (linha do Elevador da Bica) foi vendido a uma empresa particular e que os novos proprietários não pretendem renovar o nosso contrato de arrendamento. Legalmente é lhes permitido tal ação pelo que o Vai Tu, ainda que em negociações, está na eminência de encerrar definitivamente as portas no final de setembro de 2015.

Irão ser feitas obras de restauro profundo já que o prédio está em péssimas condições e obrigatoriamente temos que sair dali.
É muito doloroso para uma colectividade que faz este ano 67 anos de existência (03-09-1948) e que sempre esteve ligada à cultura e à beneficência, ver o esforço de tantos anos ir por água abaixo de um dia para o outro. Nesse sentido, a atual direção está a fazer os possíveis e os impossíveis para que isso não venha a acontecer, conforme prometemos aos sócios na última Assembleia-Geral, mas estamos a ficar "desesperados" e apelando à ajuda de todos talvez seja mais fácil:



PRECISAMOS URGENTEMENTE DE UM ESPAÇO PARA ARRENDAR NO BAIRRO DA BICA.



Não faz qualquer sentido sairmos do BAIRRO, perdia-se o VAI TU e perdem os seus associados. Basicamente são pessoas idosas, residentes na Bica, e esta colectividade é a sua primeira casa pois é aqui que se reúnem diariamente a jogar, a conversar, a beber o seu copito, a ver o seu jogo de futebol e muito mais...
Existem muitos espaços "abandonados" no nosso bairro e não sabemos quem serão os proprietários, se é que existem, e que eventualmente até poderiam servir como novas instalações. Da parte da C.M.L não há espaços disponíveis na freguesia, do lado dos novos proprietários também não, e o tempo vai passando e o Vai Tu precisa realmente de continuar a trabalhar e manter viva a nossa coletividade e todo o seu associativismo.
Aproveitamos para informar que não podemos, como é óbvio. suportar rendas brutais, pois sobrevivemos sem quaisquer apoios e com despesas mensais certas, às quais tivemos de acrescentar o arrendamento de um armazém para guardar todo o material que estava no 1º andar do prédio e que apenas é utilizado na altura dos Santos Populares e que já não cabe na sede....como diz o ditado: "manda quem pode, obedece quem deve", o 1º andar estava "emprestado" para esse fim e, por ordem da CML, num fim de semana teve de se retirar tudo o que lá estava armazenado.
Assim vimos por este meio apelar aos sócios, amigos, conhecidos e afins, que na eventualidade de saberem de algum espaço disponível para arrendar onde possa funcionar uma coletividade nos informem, nos mandem mensagem, se dirijam à coletividade, mas que acima de tudo nos ajudem a evitar que se perca uma associação com o bom nome e história que o Vai Tu sempre teve e que pretendemos que venha a continuar a ter por muitos anos.Obrigado!


A DIREÇÃO

tv on the radio - em casa e fora de casa

segunda-feira, abril 06, 2015

lykke li - em casa e fora de casa

amor à bolina

ele nunca gostou de andar de barco. não é medo, é respeito., diz. aceno que sim e perco os olhos no horizonte. o mar está calmo, as nuvens são poucas e a aragem nem chega para o despentear. dá-me a tua mão, as tuas mãos. não, não quero., reage. arranco-as dos bolsos, estão suadas, tremem um pouco. isso não é respeito, é mais do que isso, tens de confiar em mim, no barco, no céu azul. deixa-me! já te disse que os homens não foram feitos para navegar, voar ou... queres ficar para sempre no teu canto, é isso? sim. no meu recanto. não sejas assim, o mar é nosso, faz parte de mim, de nós. perdi o meu avô numa pescaria com bilhete só de ida e nem assim deixo de querer este mar meu. eu sei disso mas do mar só quero o azul dos teus olhos. eu disse-te que fazia esta viagem até à casa da tua família mas agora respeita o meu silêncio. aproveita o som das ondas, dos golfinhos, das gaivotas. vive a azáfama do mar e deixa-me, por favor, amor. ok, pode ser mas quero que saibas uma coisa: és o único que amo e só contigo me quero entregar ao mar. dou-lhe um beijo e sei que o assustei. ainda bem, o mar não é para meninos!

terça-feira, março 31, 2015

a sete chaves

cabelos grisalhos, uma voz rouca de quem fumou mais do que a vida permite,  olheiras marcadas, quarenta e cinco anos mal contados, rugas que rasgam um sorriso que desapareceu algures entre um casamento destruído, uma empresa falida e o filho que não voltou. quanta dor pode uma pessoa aguentar? quantas lágrimas pode uma mulher conter? quantos berros pode uma discussão ter até ao primeiro silêncio? guilhermina não se lembra da última vez que se sentiu alguém no meio de tanta gente. vozes sussurradas, passos ligeiros, risos nocturnos, perfumes intensos, casais ocasionais e uma casa que nunca está vaga. o seu quarto é o último, o mais longe, aquele onde a porta não abre nunca e todos perguntam. guilhermina já não vê o fundo. de nada. de tudo. a sua casa não é mais a sua casa, perdeu o marido, morreu o filho e a sua casa não é mais a sua casa. a sua vida já não é para ser vivida, apenas escondida, e ela fecha-se a sete chaves, bem fechada, tal como a porta do seu quarto.

lion babe - em casa e fora de casa

quinta-feira, março 26, 2015

seu jorge - em casa e fora de casa

um café com borra

estou farto dos velhos do café da esquina. é a conversa sobre a máquina de tabaco que não é arranjada, a garantia que noutros tempos é que era, a certeza de que o vinho está cada vez pior e a culpa tem de ser do governo. falam do sr. saraiva que não aparece vai para quatro dias mas ninguém o procura. acusam a sra. lurdes de estar sempre com os humores e dever uma semana de cafés mas ninguém a confronta. insultam o sr. mendonça, o bêbedo de serviço, mas nunca lhe ouviram um lamento. os tempos passam lentamente no café da esquina, é assim em todos, mas custa mais no meu. peço um café e faço dele uma tarde sem fim. veio com borra, uma chatice, um inferno, e, pior que tudo, ainda falta tanto tempo para o final do dia.

quinta-feira, março 12, 2015

zero 7 - em casa e fora de casa

do terceiro frente

gertrudes não se lembra de quando foi a última vez que o telefone tocou. hoje tocou três vezes e depois veio o silêncio. a casa voltou ao vazio, à paz, ao sossego de que tanto gosta. ela ainda ouve os passos distantes de quem já lá não vive e sente o carinho de rodrigo nas fotos que a observam. gertrudes está velha, não esperava chegar a esta idade, já nem se lembra bem da sua idade, de quando faz anos, de há quanto tempo é que deixou de existir. toca o telefone, outra vez. sete passos arrastados, o levantar do braço e um "bom dia, boa tarde, depende se já almoçou." "maria?" "sim, sou. quem fala? és tu rodrigo?" "sim, sou. preciso de ti, onde estás?" "em casa, nunca sai daqui, estou aqui à tua espera." "ainda bem, maria. não saias então, vou passar aí, preciso de ti, mas só abras quando ouvires a minha voz, as coisas não estão nada bonitas e não quero correr riscos." "que se passa rodrigo? no que te meteste? foi por isso que desapareceste? não me podes fazer isso, o meu coração não aguenta!" "não interessa, agora não interessa. e prepara as chaves do carro, podemos precisar, ok?" "carro? que carro?" "não te estou a ouvir, maria. está muito gente aqui à volta, já ai passo, cuidado, está bem? não te estou mesmo a ouvir." "que carro, rodrigo? rodrigo? rodrigo? és mesmo tu?" silêncio. os pensamentos asfixiam-lhe o coração, o peito, ou será a respiração? gertrudes enconsta-se no cadeirão de rodrigo. seria ele? doi-lhe o peito, ou será o coração? rodrigo, o rodrigo afinal está vivo, e até parece mais novo. rodrigo, o único amor. vivo! gertrudes fecha os olhos e pensa no último beijo de rodrigo. a campainha toca, toca, toca, ninguém atende, só silêncio. o carteiro rodrigo vira costas preocupado, será que aconteceu alguma coisa à velhota do terceiro frente?

sexta-feira, fevereiro 27, 2015

warpaint - em casa e fora de casa

faltam-me sempre trocos

tenho revistas espalhadas por todo o lado, a cozinha está um caos, não há comida na despensa nem mercearias abertas a estas horas. há chamadas perdidas no telefone de casa e um carregador partido. pisca o neon da farmácia e a televisão dos vizinhos tem um canal cá em casa. não há roupa lavada, nem sei mesmo se há água nos canos. devia ver se a velha ainda vive no quarto dos fundos. foderam-me a cerveja, o vinho e os restos das garrafas de outras núpcias. tenho sede. não encontro nada do que procuro. tocam à porta, não quero saber. tocam novamente. ainda não quero saber. mas vou ver. espreito. olhos claros, cabelo louro, pintado. lábios carnudos. está aí alguém? preciso de ajuda, por favor., diz a sua voz tremida. silêncio do meu lado. uma gaja à minha porta é meio caminho andado para uma queca, e, contudo, não quero mais merdas na minha vida. sim, quem és, o que queres, e tens tabaco?, disparo. sou a maria, carlos. do bar da manela. bar, o caralho, casa de putas, minha vaca. abre a porta, por favor. estou em perigo. não! sai e não me chates os cornos. abre a porta, por favor. não! carlos, abre, por favor. eu faço tudo. tudo? mesmo tudo? sim, por favor. então primeiro vai-me comprar tabaco. já! então abre a porta e dá-me dinheiro. vejo os bolsos, a mesa ao lado da porta, a carteira e nada. não tenho. não tenho, arranja-te, digo-lhe. carlos, vá lá. dá-me trocos ou não te posso ajudar. tu é que precisas de ajuda, minha vaca. olha, caguei, vou-me embora, vou tocar a casa do paulo. maria lança um beijo na minha direcção e desce as escadas a correr. a porta bate ao fundo e inunda-me a vida de silêncio. fico sozinho, com uma velha morta ao fundo do corredor e uma vida que não muda. faltam-me sempre trocos para abrir a porta às marias da vida.

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

o que custa mais

é nunca mais ver as tuas orelhas caídas. é não sentir a tua cauda-espanador nas minhas pernas. é não ouvir os teus passos-de-quem-tem-algo-para-cheirar a encher a casa. é não ver o teu olhar sempre cachorro. é não ter a tua pata pedinte. é ter de tomar a decisão. é que tudo acaba. é que o meu juanito nunca mais será don juan.

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

hot chip - em casa e fora de casa

fevereiro de aniversário

uma noite fria, dois pés que se cruzam debaixo do lençol, sorrisos ternos, palavras sussurradas, percentagens fora do excel, um beijo que se espera. "amo-te!"

terça-feira, fevereiro 03, 2015

amanhã, talvez.

miguel tinha os olhos claros, pequenas rugas de expressão, uma voz rouca e o dente português em falta. contava sempre o final das suas histórias duas vezes, duas vezes o final. miguel acordava cedo, bebia um café, comia um salgado e varria o jornal à procura do trabalho que insistia em não aparecer. depois passeava pelo velho centro comercial da zona e relembrava-se de como eram os tempos em que porta-sim, porta-sim, havia cores, cheiros, roupas, pessoas felizes. e ele, por vezes, ficava triste. o almoço ainda estava longe e a solidão aparecia entre as cartas caídas nas lojas vazias. miguel passava quase sempre pelos tios de maria, era só para um bacalhau, um beijo rápido e um até amanhã. outro salgado, outro café e toda uma tarde para encher. o centro de emprego insistia em não ter nada para ele e só as outras vidas partilhadas entre um e outro cigarro lhe davam alento. há vidas piores, pensava. o sol punha-se, o jogo ia começar não tarda nada, miguel nem sabia quem jogava hoje. seria terça ou quarta? ele tinha fome, muita fome, e só dois euros no bolso. dois euros eram uma sorte daquelas, davam mesmo à justa para um café e um salgado. amanhã talvez tudo mudasse. amanhã, talvez.

josh rouse - em casa e fora de casa

domingo, janeiro 25, 2015

portugal não é a grécia

hoje como no passado. não somos os gregos que passaram dificuldades nos últimos dois, três, quatro, cinco anos. já ninguém se lembra dos gregos que morrem à fome nas ruas porque temos mil e outros problemas "estrangeiros" que nos entram pela casa adentro mas só até à casa dos segredos. não somos os gregos porque votamos sempre nos mesmos, naqueles que um dia são contra a compra de dívida, noutro já não se lembram de nada, naqueles que não acham que haja falta de médicos e depois contratam às dezenas. não somos a grécia. não somos o syriza! não somos mas deviamos ter o nosso syriza. a festa que o bloco faz é rídicula, a apropriação que o pcp faz idem, até o ps se junta à festa. não temos syriza porque ninguém quer dizer o que não se deve dizer. é preciso provocar, exigir, mudar. levamos demasiados anos de um liberalismo bacoco, de uma farsa para alemão ver. falamos em controlo da dívida, em produtividade, em mil-e-um-chavões e nada muda. é preciso mudar, mesmo que mude pouco. é preciso melhorar, e muito. o syriza ganhou e a extrema-esquerda assusta a europa mais do que nunca. quem diria que um pequeno partido, de um pequeno país pudesse assustar tanto? contudo, esta vitória traz em si uma enorme responsabilidade, a de ser uma real alternativa, a de não falhar, é que a extrema direita está já ali ao virar da esquina. portugal não é a grécia, então quando será?

you and i

sexta-feira, janeiro 09, 2015

Não somos todos Charlie

"Muitas pessoas perdem o humor, meramente, por perceberem que você não perdeu o seu." 
Frank Moore Colby


Confesso-me um pouco admirado com a quantidade de Charlies que há neste país e que eu desconhecia. Na sequência do miserável ataque contra a sede do jornal satírico Charlie Hebdo, foram vários os jornais e jornalistas que apareceram a empunhar cartazes com a frase - Nós Somos Charlie Hebdo. Subitamente, só faltou ver o Jornal da Madeira ser também Charlie.

Não me levem a mal, ou levem, mas vou ser Charlie: por favor, jornalistas portugueses a dizer que são o Charlie quando nem coisos (tomates) têm para não fazer favores ao Governo etc., tenham dó. Não, não são todos Charlie. Pelo contrário, há meia dúzia que são e ainda bem que há. Agora não se façam passar por eles. Hoje somos todos Charlie Hebdo, mas amanhã voltamos ao que éramos. Aos jornais, televisões, etc., que aparecem a dizer-se Charlie, pergunto: quantas semanas durava o Charlie Hebdo em Portugal antes de ser cancelado por causa de chatices com a Igreja, Angola ou o Governo? Força, Charlie. Quantos jornais portugueses teriam coragem ou vontade de publicar os "cartoons" do Charlie? Espero que estes jornais que se dizem Charlie, durante a semana toda publiquem os "cartoons" na capa.


Ligo a televisão e vejo a Assembleia da República que não deixou falar os "capitães de Abril" e que está tão chocada com esta falta de respeito pelo direito de expressão. Julgava que, para a presidente da Assembleia da República, "os carrascos" eram os que faziam barulho nas bancadas para o povo. O mesmo Telmo que está na Assembleia da República chocado, estaria a pedir para acabar com aquele "cartoon" que ofende católicos. Já assisti a isso e não foi assim há tanto tempo. "Embora fazer um referendo sobre co-adopção de casais homo" - porque respeitamos muito a liberdade dos outros. Uma Europa que vive um discurso de honestos do Norte contra preguiçosos do Sul está de boca aberta com extremistas. Somos todos Charlie. É só grandes defensores da liberdade de expressão e dos direitos individuais e das conquistas da democracia, no mesmo local onde se apoia que a Merkel possa fazer chantagem eleitoral sobre os gregos.


Vivemos num país em que o Presidente da República, como representante de todos os portugueses, não vai ao enterro de um escritor (Nobel) porque não gosta dele, ou que não dá os parabéns a outro que canta fado porque não canta o que ele gosta, e que deve estar a deitar cá para fora um comunicado sobre a importância de aceitar a liberdade de expressão e a diferença.


Não, não somos todos Charlie. Eu, felizmente, nem sei desenhar.


João Quadros in Negócios Online

quarta-feira, janeiro 07, 2015

"Je suis Charlie!"


"Nous sommes… », não, é apenas “je suis”. Não somos todos iguais, não interpretamos da mesma maneira este crime/massacre/vingança/azar/estava-se mesmo a ver quando se dá liberdade aqueles monstros. Todos partilham os vídeos, as ilustrações, as fotos, os nomes, mas são muitos os que, embora genuinamente sensibilizados, amanhã desviarão as suas atenções para o próximo evento mediático, seja a cólera, um tufão, ou a humidade na cela 44. Mais do que isso, irão interpretar este acontecimento como mais um momento “eu nem acho isso mas se calhar os árabes são todos iguais”. Não somos todos iguais, repito. Os muçulmanos não são todos árabes, os árabes não são todos extremistas religiosos, são inúmeras as variáves. E podemos subsituir estes conceitos por judeus, ciganos, pretos, ah, como é lindo o mundo da matemática. Infelizmente, as relações humanas e políticas não são uma equação com as respostas certa na última página. Integrar, segregar, apoiar, dividir, religião, ateismo, onde está a melhor resposta para cada problema, onde está a última página? Não somos todos iguais, não interpretamos da mesma forma o que aconteceu hoje, aliás muitos dos jornalistas que hoje são Charlie, passam a vida a escrever o que lhes ditam, muitas das pessoas que elogiam e se sentem um pouco mais Charlie são os primeiros a desprezar e segregar o próximo. “Je suis Charlie”, não porque sou como aqueles jornalistas mas porque gostaria de ser como eles.