sexta-feira, fevereiro 27, 2015

warpaint - em casa e fora de casa

faltam-me sempre trocos

tenho revistas espalhadas por todo o lado, a cozinha está um caos, não há comida na despensa nem mercearias abertas a estas horas. há chamadas perdidas no telefone de casa e um carregador partido. pisca o neon da farmácia e a televisão dos vizinhos tem um canal cá em casa. não há roupa lavada, nem sei mesmo se há água nos canos. devia ver se a velha ainda vive no quarto dos fundos. foderam-me a cerveja, o vinho e os restos das garrafas de outras núpcias. tenho sede. não encontro nada do que procuro. tocam à porta, não quero saber. tocam novamente. ainda não quero saber. mas vou ver. espreito. olhos claros, cabelo louro, pintado. lábios carnudos. está aí alguém? preciso de ajuda, por favor., diz a sua voz tremida. silêncio do meu lado. uma gaja à minha porta é meio caminho andado para uma queca, e, contudo, não quero mais merdas na minha vida. sim, quem és, o que queres, e tens tabaco?, disparo. sou a maria, carlos. do bar da manela. bar, o caralho, casa de putas, minha vaca. abre a porta, por favor. estou em perigo. não! sai e não me chates os cornos. abre a porta, por favor. não! carlos, abre, por favor. eu faço tudo. tudo? mesmo tudo? sim, por favor. então primeiro vai-me comprar tabaco. já! então abre a porta e dá-me dinheiro. vejo os bolsos, a mesa ao lado da porta, a carteira e nada. não tenho. não tenho, arranja-te, digo-lhe. carlos, vá lá. dá-me trocos ou não te posso ajudar. tu é que precisas de ajuda, minha vaca. olha, caguei, vou-me embora, vou tocar a casa do paulo. maria lança um beijo na minha direcção e desce as escadas a correr. a porta bate ao fundo e inunda-me a vida de silêncio. fico sozinho, com uma velha morta ao fundo do corredor e uma vida que não muda. faltam-me sempre trocos para abrir a porta às marias da vida.

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

o que custa mais

é nunca mais ver as tuas orelhas caídas. é não sentir a tua cauda-espanador nas minhas pernas. é não ouvir os teus passos-de-quem-tem-algo-para-cheirar a encher a casa. é não ver o teu olhar sempre cachorro. é não ter a tua pata pedinte. é ter de tomar a decisão. é que tudo acaba. é que o meu juanito nunca mais será don juan.

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

hot chip - em casa e fora de casa

fevereiro de aniversário

uma noite fria, dois pés que se cruzam debaixo do lençol, sorrisos ternos, palavras sussurradas, percentagens fora do excel, um beijo que se espera. "amo-te!"

terça-feira, fevereiro 03, 2015

amanhã, talvez.

miguel tinha os olhos claros, pequenas rugas de expressão, uma voz rouca e o dente português em falta. contava sempre o final das suas histórias duas vezes, duas vezes o final. miguel acordava cedo, bebia um café, comia um salgado e varria o jornal à procura do trabalho que insistia em não aparecer. depois passeava pelo velho centro comercial da zona e relembrava-se de como eram os tempos em que porta-sim, porta-sim, havia cores, cheiros, roupas, pessoas felizes. e ele, por vezes, ficava triste. o almoço ainda estava longe e a solidão aparecia entre as cartas caídas nas lojas vazias. miguel passava quase sempre pelos tios de maria, era só para um bacalhau, um beijo rápido e um até amanhã. outro salgado, outro café e toda uma tarde para encher. o centro de emprego insistia em não ter nada para ele e só as outras vidas partilhadas entre um e outro cigarro lhe davam alento. há vidas piores, pensava. o sol punha-se, o jogo ia começar não tarda nada, miguel nem sabia quem jogava hoje. seria terça ou quarta? ele tinha fome, muita fome, e só dois euros no bolso. dois euros eram uma sorte daquelas, davam mesmo à justa para um café e um salgado. amanhã talvez tudo mudasse. amanhã, talvez.

josh rouse - em casa e fora de casa