terça-feira, fevereiro 03, 2015

amanhã, talvez.

miguel tinha os olhos claros, pequenas rugas de expressão, uma voz rouca e o dente português em falta. contava sempre o final das suas histórias duas vezes, duas vezes o final. miguel acordava cedo, bebia um café, comia um salgado e varria o jornal à procura do trabalho que insistia em não aparecer. depois passeava pelo velho centro comercial da zona e relembrava-se de como eram os tempos em que porta-sim, porta-sim, havia cores, cheiros, roupas, pessoas felizes. e ele, por vezes, ficava triste. o almoço ainda estava longe e a solidão aparecia entre as cartas caídas nas lojas vazias. miguel passava quase sempre pelos tios de maria, era só para um bacalhau, um beijo rápido e um até amanhã. outro salgado, outro café e toda uma tarde para encher. o centro de emprego insistia em não ter nada para ele e só as outras vidas partilhadas entre um e outro cigarro lhe davam alento. há vidas piores, pensava. o sol punha-se, o jogo ia começar não tarda nada, miguel nem sabia quem jogava hoje. seria terça ou quarta? ele tinha fome, muita fome, e só dois euros no bolso. dois euros eram uma sorte daquelas, davam mesmo à justa para um café e um salgado. amanhã talvez tudo mudasse. amanhã, talvez.

Sem comentários: