terça-feira, março 31, 2015

a sete chaves

cabelos grisalhos, uma voz rouca de quem fumou mais do que a vida permite,  olheiras marcadas, quarenta e cinco anos mal contados, rugas que rasgam um sorriso que desapareceu algures entre um casamento destruído, uma empresa falida e o filho que não voltou. quanta dor pode uma pessoa aguentar? quantas lágrimas pode uma mulher conter? quantos berros pode uma discussão ter até ao primeiro silêncio? guilhermina não se lembra da última vez que se sentiu alguém no meio de tanta gente. vozes sussurradas, passos ligeiros, risos nocturnos, perfumes intensos, casais ocasionais e uma casa que nunca está vaga. o seu quarto é o último, o mais longe, aquele onde a porta não abre nunca e todos perguntam. guilhermina já não vê o fundo. de nada. de tudo. a sua casa não é mais a sua casa, perdeu o marido, morreu o filho e a sua casa não é mais a sua casa. a sua vida já não é para ser vivida, apenas escondida, e ela fecha-se a sete chaves, bem fechada, tal como a porta do seu quarto.

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