quinta-feira, março 12, 2015

do terceiro frente

gertrudes não se lembra de quando foi a última vez que o telefone tocou. hoje tocou três vezes e depois veio o silêncio. a casa voltou ao vazio, à paz, ao sossego de que tanto gosta. ela ainda ouve os passos distantes de quem já lá não vive e sente o carinho de rodrigo nas fotos que a observam. gertrudes está velha, não esperava chegar a esta idade, já nem se lembra bem da sua idade, de quando faz anos, de há quanto tempo é que deixou de existir. toca o telefone, outra vez. sete passos arrastados, o levantar do braço e um "bom dia, boa tarde, depende se já almoçou." "maria?" "sim, sou. quem fala? és tu rodrigo?" "sim, sou. preciso de ti, onde estás?" "em casa, nunca sai daqui, estou aqui à tua espera." "ainda bem, maria. não saias então, vou passar aí, preciso de ti, mas só abras quando ouvires a minha voz, as coisas não estão nada bonitas e não quero correr riscos." "que se passa rodrigo? no que te meteste? foi por isso que desapareceste? não me podes fazer isso, o meu coração não aguenta!" "não interessa, agora não interessa. e prepara as chaves do carro, podemos precisar, ok?" "carro? que carro?" "não te estou a ouvir, maria. está muito gente aqui à volta, já ai passo, cuidado, está bem? não te estou mesmo a ouvir." "que carro, rodrigo? rodrigo? rodrigo? és mesmo tu?" silêncio. os pensamentos asfixiam-lhe o coração, o peito, ou será a respiração? gertrudes enconsta-se no cadeirão de rodrigo. seria ele? doi-lhe o peito, ou será o coração? rodrigo, o rodrigo afinal está vivo, e até parece mais novo. rodrigo, o único amor. vivo! gertrudes fecha os olhos e pensa no último beijo de rodrigo. a campainha toca, toca, toca, ninguém atende, só silêncio. o carteiro rodrigo vira costas preocupado, será que aconteceu alguma coisa à velhota do terceiro frente?

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