terça-feira, outubro 20, 2015

com duas pedras de gelo

a música está riscada, ouvem-se ruídos difusos e a melodia perde-se algures nos golpes que rasgam o terceiro tema. luís já a ouviu mil vezes, se calhar é por causa disso ou dos copos que insistem em cair  em cima do vinil que hoje não se ouve nada. mesmo nada. está cansado. não se lembra como chegou ali. 
era um jantar de trabalho, ou então com colegas de trabalho, ou se calhar eram apenas conhecidos do prédio. um copo e outro copo, a comida não chegava e outro copo. ria-se alarvemente, contava histórias divertidas, ele pelos menos assim achava, e olhava para a empregada com um ar lascivo. estava a ser uma noite à antiga. e o copo que insistia em ficar vazio. "mais um, por favor." a dona carlota, gordurosa dona do restaurante, já sabia como isto acabava pelo que deu sinal ao pedro, o empregado das piadas fáceis, para servir luís mais lentamente. a história azedou, ele apercebeu-se e insistia em dizer que quem mandava ali, quem mandava ali era o cliente. "e mais um, por favor." a comida não chegou, o uísque sim. sentia-se numa festa universitária com o cansaço de um velho que espera pela morte. e depois caiu, ou melhor, deve ter caido.
um galo, uma dor do lado esquerdo da cabeça e uma branca. total. que horas são? espreita o relógio. não é tarde. mas sente que dormiu umas horas no chão da sala, tem o corpo dorido, partido, e há vómitos no tapete. precisa de ouvir música. aquela música.
aquela música lembra-lhe o passado, o primeiro copo, a primeira morte, a primeira pessoa, a segunda música. luís quer parar o tempo naquele passado distante mas não há pause neste leitor de vinil, não há pause, não há vinil, mas há uisque. e gelo. tem sede e ainda faltam tantas horas para o sol nascer.

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