terça-feira, novembro 24, 2015

casa de pó

a velhice encheu-me a casa de pó e de silêncios. os teus olhos azuis são o mar que nos espreita todas as manhãs, são a última recordação de uma vida que está longe. tão longe como as palavras de amor que já não trocamos. houve carinho, claro, eu amava-te mas era amor pelo conforto que uma vida em comum nos dá. pó, há pó por todo o lado. uma teia de aranha, aqui e ali, um soalho que range e pratos riscados à espera de mais um almoço frio. vais e vens da vila e eu por aqui fico. fico presa a uma cadeira que não roda, apenas me prende. o céu é azul e acaba ali onde o mar se perde. dizes que já lá fomos, que foi o nossa primeira viagem depois do casamento, não sei, não acredito, duvido mesmo. os tempos eram outros, havia respeito. eu era nova, ingénua e ansiosa pelo casamento que estava escrito nos romances de cordel, eras um cavalheiro, eu uma princesa, e a nossa história só acabaria quando as palavras emudecessem. silêncio. a nossa casa é um silêncio feito de barulhos velhos e eu desgosto. onde estão os teus olhos azuis? não devias ter regressado já da tua volta? fecho os olhos, estou cansada, exausta, oiço o vento lá fora, o mar a bater nas rochas, um carro ao longe, uma ave a grasnar e tudo me ensurdece. tenho saudades do teu silêncio. não sei viver com as tuas palavras, não sei viver sem o teu silêncio. que dia é mesmo hoje?

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