quarta-feira, novembro 25, 2015

pedro, o feliz

pedro era um miúdo normal. tinha mil amigos e sabia bem qual era o preferido, o segundo, terceiro, quarto, tudo bem definido e contabilizado, mesmo até ao fim, até chegar ao gordo da rua da avó, que era divertido apesar de ser gordo. "os gordos são sempre assim", dizia a avó antes de acrescentar "menos a badocha da dona laura, da praça, que rouba sempre na fruta". pedro era feliz, andava nos escuteiros, tinha boas notas, recebera uma fantástica bola de couro. esta era mesmo redonda! o jaime tinha medo dela e deixava sempre entrar se pedro rematasse à figura. lia livros com ladrões e bandidos, que os policias eram uma seca e histórias de príncipes e donzelas eram conversa da prima francesa. pedro sorria, sorria muito e ria, ria sobretudo quando o avô contava aquelas histórias assustadoras da mina. ele esticava aqueles braços enormes, abria umas mãos sem fim e agarrava-o. as histórias do avô acabavam sempre assim, um abraço que ia daqui até ao fundo da mina, ao fim do mundo, daqui até ao país com nome estranho onde os pais estavam, onde eles se esconderam por causa de umas coisas da política. "talvez um dia eles voltem, pedro, e ai vamos todos juntos ver o elefante ao zoo. e ele vai tocar a sineta só para ti, prometo." a felicidade na ponta de uma tromba parece piada de banda desenhada mas os miúdos são assim simples e pedro era assim. feliz.

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