terça-feira, dezembro 15, 2015

o jacinto

do café central até casa da dona irene não devem ser mais de vinte minutos de bicicleta. juro que mal andava até à morte do seu marido mas ela agora está sozinha e sozinha fica. eu estava a ficar gordo, tinha dores nos joelhos e até me faz bem esta voltinha. dona irene faz sempre uns bolinhos maravilhosos e o chá é de canela. falamos a tarde toda e ninguém diria que um homem do campo pode ter tanto para contar a uma senhora. outro dia levei-lhe umas flores, uns jacintos, o que não deixa de ser engraçado porque é o meu nome. ela não reconheceu, coitada, mas agradeceu muito e até fez um bolo de laranja no dia seguinte. infelizmente sou alérgico e andei três dias com um inchaço na garganta que parecia papeira. rimo-nos muito e assim ficámos com mais uma história para contar. um dia iremos os dois à grande cidade, eu já lá fui mas foi há tanto tempo. fui às sortes ainda no tempo da outra senhora. dona irene, que já lá viveu, acha isso tudo muito divertido e garante-me que mostra a cidade toda, até mesmo as lojas finas. já lhe disse que não preciso disso, quero mesmo é ver as de ferragens porque têm material do bom, daquele que vem do estrangeiro. e ela ri-se. ela ri-se muito, quando não chora porque o filho é um pulha que só quer o dinheiro do falecido. era um bom homem, o doutor duarte mello. mello, com dois ls, que isto é gente que se trata bem. o rodolfo do café diz que eu devo ter cuidado com ela, que ela tem alguma fisgada, já lhe disse que ele é apenas um burro velho que não tem onde cair morto e não percebe que o amor não escolhe idades. eu bem sei, que já vi uns filmes estrangeiros sobre isso. o rodolfo é um jarreta que só pensa em beber e tem saudades de eu já não passar tardes com ele lá no café. paciência!, ganho eu e mais fica da minha reforma. dona irene é uma querida, uma senhora e sabe muito. ela merece o melhor e por ela, por ela, oh, por ela faço tudo. dona irene é um amor, um amor como nunca tive, e logo uma senhora. outro dia deixou-me pôr a mão na sua perna. percebi que estava com vergonha e nem procurei os seus olhos, fiquei só assim, com as minhas mãos de homem na sua perna feminina. as coisas são assim, no campo tudo leva tempo. ela merece o melhor e por ela, por ela até limpo a minha arma. dona irene garante-me que seu filho vem cá na próxima semana. o biltre! pode ser que tenha um azar. dona irene, como gosto de dona irene. como é bom estarmos assim juntos, assim perto. do café central até casa da dona irene não devem ser mais de vinte minutos de bicicleta.

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