quinta-feira, março 16, 2017

dicionário sentimental

a porta fecha-se com estrondo, cai uma moldura, bate uma janela. é apenas o vento de março a fazer das suas, pensa alice. eles até estão bem, sempre estiveram. alice fica sozinha, ela e aquele silêncio. alice tem saudades da casa dos pais, dos primos, de ser criança, da estar feliz. é triste ter saudades de tanta coisa, pensa. todos lhe dizem que ela tem muita sorte, que tem uma casa muito bonita, que tem uma vida de sonho. ela não concorda, é que alice nunca gostou verdadeiramente daquela casa. e, se calhar, isso também é triste, pensa. alice tem medo do escuro, tem medo do silêncio, tem medo das palavras, tem medo do confronto, tem medo do futuro, tem medo de perder o que já não tem. a janela volta a bater. o sol entra pela claraboia, rasga o corredor e ilumina uns livros desorganizadamente empilhados. o escritório foi invadido por brinquedos esquecidos e apenas a tv resiste em stand-by. já desligo, eu ainda volto, diz-lhe sempre, mas nunca volta. na mesa da cozinha, uns dedos de criança escreveram em pó de chocolate: amo-te, mã. alice sabe que aquelas palavras não se apagam, mas passa-lhes um pano seco por cima, só para não estragar a madeira. o café dele ficou na bancada. fica sempre. agora está frio, se calhar esteve sempre frio. devia meter a loiça na máquina, limpar as migalhas, arrumar os panos, guardar o queijo, o fiambre e os cereais. devia pintar-se, esticar o cabelo e vestir uma roupa melhor. devia fazer tanta coisa, mas é só mais um dia. nada tem de ser diferente, diz para si própria. alice olha pela janela, o vento sopra forte, arrasta folhas, papéis e lixo para a piscina vazia. é uma imagem triste, pensa. senta-se no banco e pega no telemóvel. zero chamadas, duas mensagens tão vazias como essa manhã: uma do talho, outra do cabeleireiro. também é um pouco triste, pensa. marca um número conhecido. hoje não consigo ir, passei mal a noite. amanhã estarei de volta. obrigado. até amanhã. beijinhos. alice mentiu. é triste mentir, pensa. ela sabe que nem tudo é mau mas sente que tudo é triste. e isso é triste. e é triste perder o tempo, perder o amor, perder as palavras. alice gostaria de descobrir um calendário lunar feito à sua medida, gostaria de encontrar o amor que lê nos livros, gostaria de saber para onde é que varreu as palavras de que tanto precisa. alice precisa de tanta coisa e só lhe resta uma casa de silêncios por encher. o telemóvel vibra, alice sorri. olá! está tudo bem? ouvi dizer que estás doente… beijinho.

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