quarta-feira, abril 19, 2017

canto três

o dia ainda vai curto, a lua está cheia, os lençóis são duas faixas de seda que se enroscam nas pernas macias de inês. as lágrimas correm pela almofada branca, o coração aperta e o sono não chega. ela relembra cada palavra que trocaram nessa manhã cinzenta. um telefonema, dois e-mails, três mensagens e um adeus que não devia ter chegado antes do fim do amor. pedro sempre foi boa pessoa. tinha olhos claros, cabelo noite, o dom da palavra e um coração de poeta. sempre se apaixonou facilmente mas nem era por mal. aliás, antes isso do que roubar, dizia. pedro escrevera a paixão deles em versos decassílabos, tal e qual a história dos mais belos príncipes e princesas. mas, agora, era só isso que restava a inês, uma triste amalgáma de sílabas contadas que não contavam mais. inês queria ligar-lhe, queria tentar outra vez. só mais uma vez. esta vez. inês pega no telefone, marca o número dele, o telefone toca, toca, toca. agora é tarde, pedro é morto.

adraga

o carreiro para o mar insiste em ser deles desde a primeira vez que o cruzaram. descem rápido com o vento na cara, com os olhos semicerrados do sol que acaba, a trautear a música velha que passa na rádio. lá longe, a areia ainda é calor, as ondas ainda se quebram, e as dunas ainda dormem abandonadas. é primavera em cada vendaval de fim de tarde e ela vive nos dedos que se enrolam nos cabelos dele. são irrequietos caracóis dourados, tão doces como os beijos de uma criança. toda a praia é feita de silêncios, todo o amor é feito de palavras mudas. o carro para no fim da estrada, a lua rasga o céu laranja e eles escrevem um sorriso apaixonado.