terça-feira, setembro 05, 2017

jorge luis

vou-me embora! desculpa mas não aguento mais, não aguento mais esta terra, não aguento mais estas pessoas., diz. duas lágrimas gordas escorrem-lhe pela face e muitas outras espreitam os seus olhos claros. não peças desculpa, nunca peças desculpa, princesa., sussurro-lhe. mas eu sei que ela terá de ir. ela avança pelo corredor e deixo-me escorrer pela parede. sou o choro destas duas caras-metade-separadas e não aguento. não me aguento. sinto as saudades do nosso futuro nos meus ombros e caio na madeira quente. o sol bate toda a tarde naquele pedaço e sou o gato malhado que fecha os olhos e pede mimo. as portas do armário batem, a mala cai, os cabides abanam, as gavetas chiam, e eu pergunto-me: quantas malas precisamos para guardar os sonhos que não tivemos tempo para viver? quarto, casa de banho, quarto, casa de banho, a viagem dela parece não ter fim, e eu tenho a certeza de que não quero o fim desta viagem. não quero a mala cheia nem a casa vazia. ela chama-me. deixo fugir um «amor?» e ela pede-me que não complique mais. que não complique mais o que não é fácil. desculpa!, respondo. nunca peças desculpa. não é o que dizias sempre?, atira. é., concordo. sempre concordei com os paradoxos que fizeram este amor acontecer. mesmo, mesmo quando nada o parecia possível. eu sei, amor. eu sei que o amor não é uma história de príncipes e princesas onde o fim é sempre escrito numa página par. mas custa, custa ouvir a música em que o um é o número mais solitário. custa. e a porta bate.

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