terça-feira, setembro 05, 2017

laranja de abril

o laranja fim de tarde insiste em romper pela casa fechada a sete chaves. é o sol que aquece a sala e mostra a sara que nem tudo é vento frio no nascer da noite. a mala fica pousada logo à entrada, os sapatos atirados corredor fora, a malhinha que se deixa pousar a um canto. é a casa de família que precisa de pessoas para ser, é a família que precisa de casa para acontecer. sara, a solitária, diz o quadro senhorial que preenche a parede antiga. pode ser um cognome, pode ser um triste fado. abre as janelas, aceita a luz, entra o ar. liga o rádio e enche a casa de música. são melodias antigas, se a filha estivesse ali diria que são coisas da avó. talvez, talvez o tempo tenha parado naquela casa relógio. sara espreita o frigorífico. um nada branco que se abre. e depois se fecha. cai um íman. cai uma fotografia. cai o calendário: abril, mês das chuvas, da páscoa e da morte. são os meses que insistem em não passar. a morte sempre ali, sempre aberta no calendário espalhado, e o tic tac do relógio ecoa. as lágrimas são sempre salgadas, dizem, as de sara são amargas. são uma amarga laranja de abril.

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