quarta-feira, setembro 20, 2017

um risco no vinil velho

os riscos deste vinil velho são a nossa história velha, amor. a casa está vazia e tudo ecoa. a casa é vazia e é eco. não voltei a abrir as portadas desde a tua morte. nem uma única vez. hoje estive a arrumar os teus vinis, sabes? tenho tanto tango por dançar, tanta música por sentir na poltrona verde que comprámos num domingo triste. ela tem um plástico por cima para não apanhar nódoas. como se alguém viesse cá a casa, dizias tu nos últimos meses. ninguém aparecia e não aparecíamos em lado algum, não havia outros no nosso nós. o vinil velho canta carlos gardel, à janela as folhas verdes mostram-me a primavera a romper, e oiço vozes que me dizem que o verde é a cor da melancolia russa. não consigo vestir o sorriso primaveril, sabes? apetece-me chorar-te mas o pó dos olhos é sempre mais forte e ganha por desistência. não chores mais, pediste. e eu tento respeitar a pausa que fizemos no amor. está difícil, amor. é que os riscos deste vinil velho são a nossa história nossa e ela insiste em estar cravada em todo o lado.

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