terça-feira, outubro 17, 2017

O Estado sou eu

Ou o Estado são os outros? Serei eu que não tenho culpa nenhuma, nem sou parte alguma de um todo. Eu que sou um homem-ilha mesmo quando me dizem que nenhum homem é uma ilha. Por isso, nenhum homem será uma floresta, um pinhal ou um eucaliptal. E também por isso são tão poucos os que limpam florestas.

Uma das maiores certezas dos grandes incêndios é que estes põem a nu uma série de fragilidades e falhas: da prevenção/deteção dos primeiros fogos, das limpezas das matas, da ineficácia das primeiras respostas, da evacuação de feridos, crianças e idosos, do evitar do descontrolo do fogo, até à falta de uma comunicação clara e eficaz do governo, proteção civil e demais cargos locais. Está tudo errado, ou quase tudo.

O discurso durante e na fase de rescaldo é, tendencialmente, igual e previsível: ainda é cedo para tomar uma posição / não queremos apontar o dedo a ninguém / a culpa é de x e y / eram condições climatéricas anormais. E, contudo, está repleto de razão. São múltiplas as explicações e as responsabilidades do Estado, dos privados, do passado e do presente. E também é verdade que vão morrer mais pessoas! A revolução não se faz num dia. E é fundamental perceber que é necessária uma revolução nas florestas e no interior de Portugal. A crítica que sempre foi feita aos perigos da desertificação tinha também em si um alerta: um interior abandonado é uma bomba à espera de explodir. Ou arder, ou inundar.

Confesso que desconfio sempre dos "protestos silenciosos", das "manifestações apartidárias", dos "abaixo-assinado pelo direito do povo a...". Estes pensos rápidos da alma pouco mais nos dão do que um alívio momentâneo, quase nunca representando uma alteração dos cenários criticados (e criticáveis). Vivemos na era do like/dislike, da indignação fácil e da culpabilização ainda mais fácil. É justo. Mas isso não chega. A vida e, sobretudo, a política não se fazem apenas na praça pública e/ou redes sociais. Quantos dos que vão descer a avenida, reunir-se em frente à assembleia, assinar um abaixo-assinado, ou mesmo botar um like enraivecido, votaram nas últimas eleições, participaram numa assembleia local nos últimos tempos, conhecem o Plano de Pormenor da sua zona de residência (e a forma como ele mudou ao longo dos anos). Quantos dos indignados são os primeiros fãs do jardim, praia ou centro comercial que foi roubado à terra ou ao mar. Queremos tudo mas não olhamos a meios. E insistimos em não compreender que terra, fogo e água ganham sempre. Resta-nos, por isso, acautelar estes cenários catastróficos. E depois do caos, ajudar quem realmente precisa. O apoio localizado que surge de movimentos populares orgânicos é tão importante como as principais medidas governamentais. Se resolve o problema numa grande escala? Não, nem deverá ser essa a solução final. O objetivo é responder rapidamente e com grande precisão àqueles que de repente se viram privados de casa, comida, roupa e que, muito provavelmente, viram as suas futuras fontes de sustento arrasadas.

Discutamos então as soluções para evitar que os eventos recentes se repitam. Algumas pistas: reformular todo o sistema de emergência, dos seus meios e procedimentos; financiar a profissionalização dos bombeiros; reflorestar o interior com árvores autóctones; numa época de evidentes alterações climáticas, fará sentido termos uma fase Charlie exclusiva a uma época do ano? agilizar a comunicação entre organismos públicos centrais e locais, bombeiros, Proteção Civil, IPMA, etc.; expropriar os terrenos dos privados que claramente se mostrem incapazes de os limpar e acautelar potenciais incêndios. Este último ponto é, provavelmente, o mais delicado já que significa passar para o Estado uma grande parte dos terrenos florestais deste país. Os dados existentes apontam Portugal como sendo dos países com menor percentagem de floresta na mão do Estado. Terá o país capacidade financeira e meios para controlar e cuidar de todos esses terrenos?

As pistas que lanço aqui são poucas e resultam do meu perfil urbano. Sim, o meio de onde vimos marca o nosso olhar e, por isso, a ajuda de todos é fundamental. E mais necessária ainda é a dos que vivem nos locais afetados, e não a dos que vivem fechados entre gabinetes e corredores. Aos segundos exige-se respeito por quem sofre, por quem viu destruído o seu passado, presente e futuro. A demissão de ministros, responsáveis da Proteção Civil, não é um fim. Talvez nem seja um meio. O que se consegue com a remodelação de cariz político destes sujeitos tem muitos poucos efeitos práticos, mas dá uma imagem forte. Uma mudança de figuras nestas estruturas não devolve as áreas ardidas, as vidas perdidas, nem evita um cenário idêntico nos próximos tempos. Mas passa uma imagem que algo tem e vai ser feito. Ganha-se igualmente tempo e paz social para discutir com inteligência as soluções necessárias para um futuro diferente no interior do país (e na sequência disso nas florestas).

O Estado sou eu ou são os outros? Somos todos. E o chavão «agir local, pensar global» faz cada vez mais sentido. Temos de compreender que é hora de agir numa escala micro e macro: da reciclagem ao reordenamento do território, da criminalização de políticos à dos agentes económicos privados; da exigência de um real partido ecologista às políticas educativas que alertem para os riscos de desrespeitar o ambiente; de um discurso nacional que seja coerente com as práticas individuais de cada um na sua casa. O Estado somos todos. E todos somos vítimas e responsáveis pelos crimes que ocorreram, ocorrem e ocorrerão nas florestas e interior de Portugal.

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