terça-feira, novembro 14, 2017

lago correntoso

faz sexta-feira três semanas que ninguém entra na herdade de cecília. turistas, perdidos, ou conhecidos. o luiz, dos correios, não tem correspondência para entregar ou contas para lhe cobrar. o miguel, do peixe, deve andar por outros lados ou a filha ficou pior. o ed, o cómico careca dos três cabelos, desistiu de lhe tentar vender aquelas roupas velhas. cecília nunca gostou especialmente de nenhum deles, porém deu por si a pensar na falta que lhe fazem nesta noite fria. o inverno ainda vai a meio, mas este ano está a ser excecionalmente rigoroso e ela não sabe se terá lenha até ao fim. o tabaco acabou há três dias, o vinho acabará no fim de semana. tudo acaba. e, contudo, do que sente mesmo falta é daqueles três. a montanha é agreste, sempre foi, e cecília uma cinquentona abandonada pela vida desistiu há muito de fazer amigos. habituada a virar-se por si só, virou montanha. talvez seja do inverno, mais rude do que outros, mas ela sacrificava já, sem pensar duas vezes, um cordeiro dos seus para ter um homem a quem dar a mão e ver o lago gelado.

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