domingo, novembro 19, 2017

lago machónico

victoria tinha os cabelos negros da mãe, os olhos castanhos do pai, e toda a malandrice infantil do tio gustavo. nasceu tarde, naquela idade em que a mãe apenas faz contas à barriga que não pára de crescer, o pai pensa qual será o próximo dia da bola, e, sobretudo, quando os pais já não sabem soletrar a-m-o-r. victoria foi a filha que chegou com vinte anos de atraso mas com uma vontade inabalável de ganhar todo o tempo perdido. desde pequena que victoria encheu os caminhos do lago ao topo da montanha com as suas corridas, brincadeiras e gritos. "menos, vi, menos". a vida naquelas terras sempre foi de respeito. pelos pais, pela natureza, pelo passado, pelo futuro. "ficas aqui, trabalhas com a mãe, ajudas o pai, e um dia poderás casar com um homem bom. é assim, sempre foi assim. é a natureza a ser natureza." victoria até gostava dos rios, dos riachos, do lago, dos mares e dos oceanos, gostava da natureza, gostava mesmo. mas ela nasceu para questionar, para mudar, para ser o que outros não podem ser. e, por isso, perguntava a todos os que passavam pela ruta torta e pelo lago escuro para onde iam e se a poderiam levar até à cidade mais próxima. daí seguiria para a seguinte e depois para outra mais além. passo a passo. a natureza a ser natureza.

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