terça-feira, dezembro 05, 2017

bairro do amor

a casa estava vazia, estava sempre vazia. os quadros estavam tortos e, provavelmente, nunca estiveram direitos. nunca nada esteve direito naquela vida, que não era dela. nunca foi. a casa estava vazia. a porta fechou-se devagar. devagar, devagarinho. a mala caiu, os sacos do supermercado diário rasgaram-se e duas tangerinas rebolaram perdidas. lá se foi meio jantar. não valia a pena acender as luzes, ligar o rádio, tirar a roupa. deixou-se cair no sofá, rodeada pelo silêncio desta casa, da anterior, e da próxima. o telefone vibrou,  as piadas repetiram-se no chat do dia, e as contas acumularam-se no e-mail. eram assim as noite a noite duma mulher só. e só ela sabia que devia ter comido uma canja no café em frente, que devia ter ido ao cinema da moda, que se devia ter apaixonado pelo colega da contabilidade. devia. ela sabia. ela sabia que devia começar a sua história numa página em branco. ela sabia que devia. que devia existir um alfarrabista no bairro do amor.

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